No período de 8 a 11 de maio estive na região de West Eifel. Foi lá que o termo maar foi cunhado para identificar centros eruptivos com eventos explosivos produzidos pela interação entre o magma básico em ascensão com sistemas aquíferos profundos. A idade varia entre 16.000 e 11.000 anos. As rochas regionais são arenitos e calcários devonianos e o magma, basáltico alcalino - com cristais de flogopita de até 3 cm de diâmetro e belos cristais de olivina e augita. Três fases da história de cada um dos 250 centros eruptivos está expressa nos depósitos vulcanoclásticos e diques/derrames. A primeira fase é a de abertura do maar e os depósitos são pouco consolidados, espessos, de granulometria variada - desde cinza até blocos predominantemente de rocha regional - e compostos por conjuntos granodecrescentes com estratificação plano paralela ou cruzada. A segunda fase representa a atividade estromboliana e os depósitos são muito semelhantes porém constituídos principalmente por clastos de basalto (Figura 1 abaixo dos depósitos do Pulvermaar). A maior bomba de Eifel (que na verdade é um enorme bloco) está na Figura 2 abaixo. Nos depósitos dessas duas fases são frequentes os xenólitos de peridotito e piroxenito mantélicos e de rocha regional. No Museu de Daum, há uma vitrine com clastos decimétricos de arenito (idêntico ao nosso arenito Botucatu) com a superfície vitrificada do contato com o magma e agua em estado supercrítico (Figura 3 abaixo). A terceira fase é expressa pelos diques alimentadores e derrames. A quarta fase é a atual e é representada por gêiseres frios, nos quais a água dos sistemas aquíferos locais esguicham movidas por CO2 mantélico - degaseificação do manto. São mais de 250 centros eruptivos dos quais 10 são lagos (Figura 4 abaixo do Schalkenmehren maar) e muitos outros já estão preenchidos por sedimentos recentes e o solo é muito fértil e utilizado para agricultura.
O meu guia foi Peter Bitschene, um experiente geólogo, cuja área de tese de doutorado foram os basaltos do Paraguai e que atualmente trabalha no Museu de História Natural de Gerolstein e no Museu de Vulcanismo de Daum.
É evidente que as particularidades do tipo de magma, das características rocha regional e dos sistemas aquíferos locais não são idênticas, mas depois dessa visita, fiquei com a certeza que o modelo do hidrovulcanismo que estamos aplicando para a Província Ígnea do Paraná é consistente e que esse tipo de vulcanismo explosivo ocorreu extensiva e recorrentemente na província.
sábado, 2 de agosto de 2014
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
Hidrovulcanismo na Bacia do Paraná
Os trabalhos executados na Formação Serra Geral na porção Sulamericana da Província Paraná-Etendeka, baseados exclusivamente na estratigrafia geoquímica, não levaram em consideração as evidências da faciologia e na existência e abundância de materiais inter-derrames. Há apenas poucos anos, um grupo de pesquisadores (Evandro Lima e Carlos Sommer da UFRGS; Breno Waichel da UFSC; Eleonora Vasconcellos da UFPR; Edir Arioli e eu da Mineropar) começou a investigar essas evidências e esboçar modelos faciológicos e estilos eruptivos. Com os resultados que começaram a ser publicados há cerca de 5 anos, fica claro que o antigo modelo de vulcanismo basáltico fissural, de baixa energia eruptiva pode ter ocorrido, mas não foi o predominante. Além do mais, os "arenitos inter-trapp" e os "diques clásticos" que eram considerados como depositados pelo vento do deserto dominante durante os períodos de interrupção das erupções, são na verdade as marcas dos eventos explosivos resultantes da interação entre o magma básico em ascensão com sistemas aquíferos profundos. Em respeito aos pioneiros e para preservar a autoria, a identificação de piroclásticas na Fm Serra Geral foi registrada pela primeira vez por Reinhard Maack em 1947 e depois por Pichler (1952) e Schneider (1970).
A repetição desse processo eruptivo explosivo, promoveu grandes impactos nas características da sequência vulcânica tais como: uma enorme transferência de material - sólido e líquido - da sequência sedimentar para a vulcânica; um espessamento desmesurado da sequência vulcânica; uma forte contaminação dos magmas básicos, o que se reflete nas tipologias geoquímicas muito diversificadas das lavas; uma zonalidade dos minerais de preenchimento de vesículas e geodos e da alteração hidrotermal; e a ocorrência de eventos explosivos de grande magnitude que podem ter provocado efeitos sobre o clima global. É bom lembrar que a deposição dessa sequência vulcânica de mais de 1.700 m de espessura, ocorreu num período muito curto de cerca de 1,2 Ma com a extrusão de quase 1.000.000 km³ de lavas e depósitos vulcanoclásticos. É claro também que os modelos exploratórios necessitam de uma profunda revisão e que esse modelo eruptivo pode ter produzido depósitos minerais ainda não imaginados ou suficientemente pesquisados.
No mapeamento geológico de sequência vulcânicas, a unidade de mapeamento tem que ser delimitada com base nas características distintivas em campo e a geoquímica e a geofísica (gamaespectrometria e susceptibilidade magnética) servirão para definir as assinaturas características da unidade. É sempre bom lembrar que o mapeamento geológico é um experimento científico e por isso, as divisões estabelecidas em um mapa geológico feito por um grupo de pesquisadores devem ser observadas com base nos aspectos de campo por qualquer outro observador.
Dessa forma, no mapeamento de sequencias vulcânicas, a geoquímica é fundamental, mas não pode ser usada como primeiro critério para a divisão de unidades. Parece evidente que magmas idênticos sob diferentes condições ambientais (p.ex. derrames pacíficos x eventos explosivos) podem dar origem a conjuntos com características totalmente diversas, assim como as relações e proporções de lava x material vulcanoclástico.
Desde 2003, o Edir Arioli e eu estamos envolvidos com o mapeamento geológico do Serra Geral no Estado do Paraná. Está finalizado o mapa geológico de 60.000 km² mas ainda faltam trabalhos de campo em cerca de 30.000 km². Desde o final de 2010, estou envolvido e pesquisando em detalhe as evidências de hidrovulcanismo (erupções explosivas com magma básico) na Bacia do Paraná e na proposição de um modelo eruptivo. O relatório interno (figura com a capa à esquerda) dessa pesquisa que é um dos produtos derivados desse mapeamento geológico, está disponível (acesse pelo link abaixo).
Espero que esse relatório sirva, pelo menos, como tema para reflexão sobre a necessidade de revisar os dados, modelos e conceitos estabelecidos. Mesmo que o modelo eruptivo baseado no hidrovulcanismo, tenha sido elaborado para a Formação Serra Geral (em breve Grupo Serra Geral), ele se aplica, com as adaptações necessárias, a qualquer província vulcano-sedimentar (pelo menos as intraplacas) independentemente de sua idade. O importante é buscar as evidências de campo e depois os dados de laboratório, pois como diziam meus velhos mestres da Escola de Geologia da URGS "A geologia entra pelos pés."
Espero que esse relatório sirva, pelo menos, como tema para reflexão sobre a necessidade de revisar os dados, modelos e conceitos estabelecidos. Mesmo que o modelo eruptivo baseado no hidrovulcanismo, tenha sido elaborado para a Formação Serra Geral (em breve Grupo Serra Geral), ele se aplica, com as adaptações necessárias, a qualquer província vulcano-sedimentar (pelo menos as intraplacas) independentemente de sua idade. O importante é buscar as evidências de campo e depois os dados de laboratório, pois como diziam meus velhos mestres da Escola de Geologia da URGS "A geologia entra pelos pés."
terça-feira, 24 de julho de 2012
Orientações e técnicas vigentes em 1957
Prospecção geoquímica é uma técnica de exploração de depósitos minerais não aflorantes cuja deteclção de outro modo, pode escapar. Essa prospecção consiste na coleta de amostras de solos e rochas próximo da superfície daTerra, água fluvial, vegetação ou sedimento; cada qual testada para as quantidades traço de diversos metais. No local dos depósitos minerais, as amostras podem mostrar concentrações elevadas de metais, maiores que as quantidades em traço usuais que estão normalmente presentes nos solos, rochas, vegetação e sedimentos. Quando desenhadas num mapa da área, essas concentrações elevadas salientam-se e podem servir de guias de prospecção para o depósito encoberto.
Esse é o bom começo da Introdução da publicação Geochemical Prospecting de autoria de Nalin R. Mukherjee e Leo Mark Anthony, Boletim 3 de 1957 da Escola de Minas da Universidade do Alaska, campus de College, Alaska. Pela internet localizei um raro exemplar na Elmer E. Rasmuson Library da Universidade do Alaska, Fairnbanks. Consegui comprar uma cópia xerox graças à gentileza da bibliotecária Rheba Dupras.
Apesar de ter sido publicado em 1957, portanto nos primórdios da prospecção geoquímica, é um material muito rico e completo pois examina os conceitos básicos, especialmente as técnicas analíticas da época que eram testes colorimétricos. Mesmo assim, a sensibilidade era excepcional atingindo poucos ppm ou mesmo ppb. Um conceito importante é que os valores de background variam de local para local e assim deveriam ser definidos para cada área. A recomendação para definir os valores orientativos do fundo geoquímico - ou background - era de coletar amostras em locais distantes para comparar com os baixos teores obtidos ali, com os elevados encontrados na área alvo. O conceito importante de amostrar as águas ou sedimentos nas confluências dos cursos d'água é bem exposto, assim como são apresentadas técnicas simples e eficientes de interpretação como a elaboração de mapas e de perfis geoquímicos de solos e o mapa de distribuição dos teores de metais em uma rede hidrográfica e sua relação com a área alvo à montante
Nas últimas páginas, é apresentado um passo-a-passo das técnicas para coleta e análise de amostras no campo, assim como a elaboração do mapa de localização das amostras para subsidiar a interpretação.
Hoje tudo isso soa muito simplório, mas lá se vão 55 anos e as orientações precisas e objetivas contidas nesse material devem ter servido de base para tantas descobertas de depósitos minerais do Alaska e talvez do Canadá.
domingo, 24 de junho de 2012
Filosofando
O ceticismo científico é a atitude de duvidar de qualquer
afirmação estranha, exigindo que se apresentem evidências que a confirmem ou
buscando argumentos que a refutem. Trata-se de uma atitude de questionamento de
qualquer pretenso fato ou teoria que vá contra a visão científica do mundo
atual (Oswaldo Pessoa Jr, Ciência Hoje, 292(49), p 84. 2012) .
A astrologia e o horóscopo, os mapas astrais e a quiromancia,
a vida após a morte e os relatos da alma observando o próprio corpo, a teoria
da Terra oca, os desaparecimentos no Triângulo das Bermudas, a abdução de
terráqueos por extraterrestres, o criacionismo bíblico e o design inteligente são apenas uma parcela do arsenal de superstições,
crenças, dogmas e argumentos pseudocientíficos construídos pelo homem para dar
sentido ao inexplicável com a tecnologia e o conhecimento científico vigentes.
As religiões, crenças e seitas se baseiam na existência de
uma ou de um conjunto de divindades que se encarregou da criação de todas as
coisas e do destino dos seres vivos e especialmente dos homens após a sua
morte. A dor pela perda de entes queridos e a angústia de não saber se há um
bom lugar para os bons após a morte, me parece que são as bases para a maioria
dos dogmas do misticismo.
Em posição totalmente oposta aos religiosos, místicos ou
crentes que acreditam em dogmas sem qualquer questionamento, o cientista sempre
duvida de tudo inclusive do que está estabelecido como verdade científica.
Mesmo que essa verdade esteja baseada em fatos aparentemente inquestionáveis, sempre
há espaço para a dúvida e no momento em que a questão for elucidada, o avanço
tecnológico permitira estabelecer um novo paradigma ou um novo degrau para o avanço e o
progresso científicos. É por isso que "a ciência progride aos saltos" !
Por mais estranho que possa parecer, a autocrítica é a base para os procedimentos
de um bom religioso e de um bom cientista, como o super-ego freudiano. Para o
bom religioso, ela se materializa e se resolve nos atos de contrição e de
confissão de pecados para limpar a alma, estar mais próximo da(s) divindade(s)
e de garantir um lugar confortável após a morte. Para o bom cientista, a
autocrítica é a base de um constante questionamento da metodologia adotada, dos
dados produzidos e das conclusões elaboradas. É o super-ego do cientista
correto que o obriga a examinar todas as hipóteses, impede a ocultação de dados
contrários à sua pesquisa, exige a aplicação das melhores metodologias e
tecnologias disponíveis e a renegar o plágio, o auto-plágio, o “alpinismo
acadêmico” e o produtivismo científico.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Ovos de dinossauros com 1 metro de diâmetro ?
Não sei se o Dia da Mentira na Chechênia cai no 13 de Abril, se essa foi uma escorregada de mestre dos cientistas chechenos, se os chechenos são motivo de galhofa por parte dos russos, se esse é um jornal humorístico ou se tudo vai ser culpa do estagiário.
O fato é que em 13 abril de 2012, geógrafos da Universidade Estatal da Chechênia divulgaram ter encontrado 46 ovos de dinossauros numa área montanhosa da região de Sharoyskiy. Segundo eles, os ovos teriam 60 Ma.
"Existem matacões na encosta de uma montanha e entre eles encontramos globos arredondados" disse Magomed Dzhabrailov, um geógrafo da Universidade Estatal da Chechênia. "Nos aproximamos e vimos que eles não se pareciam com pedras. Concluimos que eram ovos de dinossauros, porque as cascas, as claras e as gemas estavam claramente visíveis. Seus diâmetros variavam entre 63 centimetros e um metro."
Porém, na edição de hoje da Gazeta.ru, Kirill Es'kov pesquisador senior do Instituto Paleontológico da Academia de Ciências da Rússia jogou um balde de água gelada na descoberta "Fizemos pesquisas e descobrimos que não são ovos de dinossauros. As amostras teem origem geológica e não existem depóstos continentais com tal idade na Chechenia. Além do mais, ovos não podem ser daquele tamanho." Ele ainda comentou que o "achado" parece se tratar de uma tentativa de atrair turistas para aquela região.
Os cientistas chechenos no entanto não se desesperaram e continuam a procurar por ovos pois pensam que dinossauros teriam habitado a região da Chechenia.
Será que esses geógrafos chechenos confundiram algum tipo de esfoliação esferoidal com ovos de dinossauros ?
A notícia foi repassada pelo meu colega Cláudio Scheid.
domingo, 20 de maio de 2012
A água do planeta Terra
O colega Fausto Vêncio postou na lista de discussão da Federação Brasileira de Geólogos (FEBRAGEO) uma mensagem com o link para uma notícia instigante baseada em dados do United States Geological Survey sobre a água contida no planeta Terra. A notícia tem dados muito conhecidos pelos geólogos mas as duas figuras são impressionantes pelas proporções.
A figura à esquerda mostra o planeta seco e uma pequena esfera com 1.385 km de diâmetro e com um volume de 1.386.999.000 km³ que inclui toda a água dos oceanos, mares, calotas polares, lagos, rios, água subterrânea, atmorférica e a contida na bisofera, inclusive no seu corpo.
A figura à direita mostra a proporção entre os volumes do planeta, de toda água da Terra (a esfera azul maior) e apenas a água doce (a esfera azul menor).
A cada dia por efeito da evapo-transpiração, 1.170 km³ de água se transformam em vapor e vão se somar aos cerca de 12.900 km³ de água, que estão na atmosfera, principalmente na forma de vapor. Se todo esse vapor se transformasse em chuva e se precipitasse num único momento, o nosso planeta seria coberto por uma película de apenas 2,5 cm de água.
A maior parte da água doce da Terra, está armazenada no solo e sub-solo, superando o que está nos lagos e rios.
Mais que 8.400.000 km³ de água doce está armazenada nos rochas da crosta até 1.500 m de profundidade.
Mas a maior parte da água doce está armazenada em 29.200.000 km³ de glaciares principalmente das regiões polares e Groenlândia.
Mais que 8.400.000 km³ de água doce está armazenada nos rochas da crosta até 1.500 m de profundidade.
Mas a maior parte da água doce está armazenada em 29.200.000 km³ de glaciares principalmente das regiões polares e Groenlândia.
Magmas-tipo do Serra Geral
Já deveria ter feito isso, mas fui deixando ...
Estou há algum tempo tentando conseguir uma cópia da tese de doutorado do David Peate "Stratigraphy and Petrogenesis of the Parana Continental Flood Basalts, Southern Brazil." defendida em 1989 na Open University. É um documento clássico no qual ele propôs a existência de seis magma-tipo na Formação Serra Geral, com base na abundância de TiO2, P2O5, SiO2, Fe2O3(total), Sr, Ba e Zr e nas razões Sr/Y, Ba/Y, Zr/Y, Ti/Y e Ti/Zr. Com isso ele apresentou os seguintes magmas tipo: Alto Titânio - Urubici, Pitanga e Paranapanema; Baixo Titânio - Gramado, Esmeralda e Ribeira. Ele foi orientado pelo Prof Chris Hawkesworth (Open Univ.) e pela Profª Marta Mantovani (USP).
Há uns dois anos consegui uma cópia xerox de um xerox de um .... da tese dele com o Pedro Viero da UFRGS, mas minha cópia ficou com algumas partes apagadas e outras ilegíveis.
Tenho trocado algumas mensagens sobre o Serra Geral com o David que é professor na Iowa University. No dia 18 de abril ele mandou uma mensagem à Daianne Silveira, estudante de geologia da UFPR e ex-estagiária da Mineropar comunicando que a British Library havia liberado a cópia em .pdf da tese dele.
Com o interesse crescente que o Serra Geral tem despertado na comunidade científica nos últimos anos e espero que aumente ainda mais, deve haver muitos interessados em ler esse documento na íntegra.
Então, aí está o link para baixar o documento completo
Então, aí está o link para baixar o documento completo
segunda-feira, 30 de abril de 2012
Gaudí e a natureza
Estive em Barcelona na semana passada. Cidade especial. Lindíssima, arquitetura de primeira com seu expoente Gaudí.
No subsolo da catedral da sagrada família me deparo com uma exposição sobre o naturalismo de Gaudí. A influência que a natureza desempenhou sobre a sua obra.
O primeiro painel trata da cristalografia e dos cristais maclados, especialmente os cúbicos como a pirita e a fluorita, e o uso que o mestre fez das figuras estranhas que são geradas pelo encontro de triedros emergindo das faces planas de cubos. Ele usou essas figuras como elemento decorativo e construtivo dos nós do coroamento das torres das tres fachadas da catedral (veja na foto à esquerda).
Além da cristalografia, Gaudí lançou mão da botânica, usando os nós das árvores e o encontro dos ramos e troncos para elaboração de suas colunas e as estruturas espirais das gavinhas da parreira para os ornamentos das colunas. Quando precisou projetar algumas aberturas, apelou para a zoologia e paleontologia, usando como modelos as estruturas delicadas e complexas dos foraminíferos (foto à direita).
Isso sem falar do genial delirio dos répteis descendo pelas paredes externas (foto à esquerda).
Interessante a exposição que me mostrou como Antoni Placid Gaudí i Cornet, o mestre arquiteto catalão fundamentou grande parte de seu processo de criação artístico e arquitetônico nas obras da natureza. Essa íntima relação começou quando ele ainda uma criança e com saúde frágil, passou longo tempo na casa dos avós localizada em uma zona rural.
Interessante a exposição que me mostrou como Antoni Placid Gaudí i Cornet, o mestre arquiteto catalão fundamentou grande parte de seu processo de criação artístico e arquitetônico nas obras da natureza. Essa íntima relação começou quando ele ainda uma criança e com saúde frágil, passou longo tempo na casa dos avós localizada em uma zona rural.
domingo, 1 de abril de 2012
Millor Fernandes, meu eterno guru
Essa pressa leviana
Demonstra o incompetente
Fazer o mundo em sete dias
Com a eternidade pela frente.
Millor Fernandes (1923 - 2012)
terça-feira, 27 de março de 2012
O que é um tubo de lava
Em regiões vulcânicas com derrames fluidos, basálticos, ocorrem feições belíssimas conhecidas como tubos de lava. Podem ter poucos metros de extensão, alcançar 11 km como o Sistema Cueva del Viento nas Ilhas Canárias ou o que tem mais que 50 km desde a alimentação até o mar e que foi formado pela erupção de 1859 do Mauna Loa, Hawaii.
Resultam do resfriamento de uma crosta de lava que forma uma carapaça com formato de tunel e o aparelho fornece alimentação contínua de lava que se desloca por seu interior. Diversas feições são tipicas de tubos de lava entre elas as mais características são cobertura de vidro no teto, estalactites de vidro pendendo do teto, marcas de fluxo simétrica nas paredes devida ao fluxo de lava. Em tubos de formação recente, são encontradas feições muito mais delicadas e frágeis como estalagmites de vidro, que exigem condições especiais para sua preservação.
Em provincias basálticas antigas como Paraná-Etendeka, Deccan e Sibéria, não conheço relatos de tubos de lava. Me parece que isso não ocorre por três motivos principais:(1) são preenchidos por lava com praticamente a mesma composição e com o passar do tempo, tubo e preenchimento se confundem;
(2) se permanecerem vazios, a pressão do soterramento acabará por destruí-los;
(3) como as paredes têm muito vidro na estrutura, os processos de palagonitização acabarão por facilitar seu abatimento, soterramento e destruição.
Alem do mais, em áreas tectonicamente instáveis e submetidas a vulcanismo basáltico explosivo - sim senhor ! isso existe, aconteceu no vulcanismo Serra Geral e se chama hidrovulcanismo ! - a preservação de feições tão frágeis quanto tubos de lava é praticamente impossível. Mas os que conhecem as dificuldades que encontramos no mapeamento faciológico e no estabelecimento da arquitetura de derrames em províncias basálticas como a do Paraná, deve concordar comigo.
Seria uma descoberta notável se mesmo um pequeno segmento de poucos metros, bem tipificado fosse encontrado, mas depois de 15 anos de trabalho no mapeamento geologico dos derrames do Serra Geral acho muito dificil que isso aconteça.
No entanto ainda espero que alguém mostre que eu estou errado.
Fotos: http://en.wikipedia.org/wiki/Lava_tube e
http://www.goodearthgraphics.com/virtual_tube/virtube.html
Seria uma descoberta notável se mesmo um pequeno segmento de poucos metros, bem tipificado fosse encontrado, mas depois de 15 anos de trabalho no mapeamento geologico dos derrames do Serra Geral acho muito dificil que isso aconteça.
No entanto ainda espero que alguém mostre que eu estou errado.
Fotos: http://en.wikipedia.org/wiki/Lava_tube e
http://www.goodearthgraphics.com/virtual_tube/virtube.html
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Charles Darwin - 12 de Fevereiro
O dia 12 de Fevereiro marca o aniversário de Charles Darwin. Nascido em 1809 em Shrewshury na Inglaterra, teria hoje 209 anos.
Na viagem que fez a bordo do H.M.Beagle que contornou o planeta a partir de 1831, lhe rendeu uma gigantesca coleção de observações, fósseis, rochas, minerais e espécimes vivos de animais e vegetais, e serviu para organizar e consolidar as suas idéias.
Nesta viagem consolidouos dois conceitos fundamentais de sua teoria publicada no livro On the Origin of Species by Means of Natural Selection em 1858: a idéia de que as espécies evoluiam e que as espécies atuais poderiam ter tido antepassados comuns (veja o esboço original abaixo).
Este livro é um dos mais importantes da literatura científica mundial e iniciou a libertação do pensamento científico das amarras, dos preconceitos, das tradições e dos dogmas religiosos, que infelizmente ainda persistem.
Aquela era a época do catastrofismo dominada pelas idéoas do livro Les Révolutions de la surface du Globe de Georges Couvier (Jean Leopold Nicolas Fréderic Cuvier), teoria fortemente influenciada pelos dogmas religiosos, que estabelecia que a Terra teria sofrido uma série de eventos devastadores - o último deles uma grande inundação planetária chamada de Dilúvio - que teria varrido da face do planeta todas as espécies. A partir de então, as espécies que haviam sido salvas na arca de Noé, teriam sofrido evolução independente até os dias de hoje.
Apesar de Charles Darwin ter recebido uma sólida formação científica herdada de sua família e dos professores da Universidade de Cambridge, geólogo Adam Sedgwick e naturalista John Stevens Henslow, ele relutou muito na divulgação de sua teoria da evolução das espécies. Sofreu dolorosas duvidas e dilemas existenciais por sua formação religiosa e discussões com a esposa, filha de um pastor anglicano.
Apesar de Charles Darwin ter recebido uma sólida formação científica herdada de sua família e dos professores da Universidade de Cambridge, geólogo Adam Sedgwick e naturalista John Stevens Henslow, ele relutou muito na divulgação de sua teoria da evolução das espécies. Sofreu dolorosas duvidas e dilemas existenciais por sua formação religiosa e discussões com a esposa, filha de um pastor anglicano.
O livro Principles of Geology do geólogo Charles Lyell (leia o original no Google Books cujo link está indicado na coluna da direita desse blog) apresentou a revolucionária idéia de que as condições e características atuais do planeta seriam o resultado de processos que atuavam constantemente ao longo dos tempos geológicos. Esse foi o ponto de partida para o raciocínio de Darwin: se o planeta era o resultado de um processo evolutivo lento e gradual, estava claro que os seres vivos que faziam parte desse sistema complexo deveriam ter percorrido caminho semelhante. As transformações sofridas seriam um resultado de seleção natural.
Na viagem que fez a bordo do H.M.Beagle que contornou o planeta a partir de 1831, lhe rendeu uma gigantesca coleção de observações, fósseis, rochas, minerais e espécimes vivos de animais e vegetais, e serviu para organizar e consolidar as suas idéias. Em 20 de Fevereiro de 1832 chegou a Fernando de Noronha e em 19 de Agosto deixou o Brasil "Dou graças a Deus e espero nunca mais visitar um país de escravos..."
Nesta viagem consolidouos dois conceitos fundamentais de sua teoria publicada no livro On the Origin of Species by Means of Natural Selection em 1858: a idéia de que as espécies evoluiam e que as espécies atuais poderiam ter tido antepassados comuns (veja o esboço original abaixo).
Este livro é um dos mais importantes da literatura científica mundial e iniciou a libertação do pensamento científico das amarras, dos preconceitos, das tradições e dos dogmas religiosos, que infelizmente ainda persistem.O Darwin Day é uma celebração global da ciência e do raciocínio livre.
No site http://darwinday.org/ é possível ter acesso a eventos e festividades que celebram esse importante fato.
Fontes: http://darwinday.org/
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
Augusto Gansser-Biaggi, o Pai do Himalaia
Augusto Gansser-Biaggi nasceu em Milão em 1910. Em 1936 graduou-se em Geologia pela Universidade de Zurique, mas com 24 anos e antes de sua graduação já participava de uma expedição à Groenlândia. No ano de sua graduação, participou da primeira expedição suiça ao Himalaia e ao Tibet e em seguida participou de diversas expedições científicas aos Andes, ao Ártico canadense, Urais, Patagonia, Antartida e Oriente Médio, Afeganistão e Roraima. Em 1958, o Prof Gansser foi convidado para assumir a Chefia da secção de Geologia do Instotuto Federal de Tecnologia e a Universidade de Zurique. Participou de outras expedições ao Himalaia, Pakistão, Ladakh, Nepal, Tibet e especialmente Butão.
Os resultados de suas pesquisas foram objeto de inúmeras publicações. Recebeu a Patron's Medal of the Royal Geographical Society London pela publicação do livro Geology of the Himalaya.
Entre as muitas honrarias que recebeu, provavelmente a mais importante, foi o título de "Baba Himalaya" (pai do Himalaya) concedido pela Universidade de Peshawar, Paquistão.
Morreu aos 101 anos, em 12 de Janeiro de 2012, em Lugano, Italia.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Feliz 2012
Muitos fatos particulares e profissionais me impediram de postar matérias nesses últimos dois meses, mas espero que em 2012 as coisas voltem ao normal.A todos os visitantes frequentes e eventuais desse blog desejo um excelente 2012.
domingo, 6 de novembro de 2011
Se não for o primeiro ...
Garimpando na Internet, encontrei uma coleção da Popular Mechanics, revista muito popular que trazia os mais recentes avanços da mecânica, eletrônica e divulgação da ciência em linguagem simples e compreensível plos "comuns mortais". Na edição de maio de 1948 (volume 89, número 5) está o artigo muito rico e preciso "Hungry plants, guide the ore prospector", assinado por Maxwell Grant que trata da aplicação da biogeoquímica na exploração mineral. Mesmo considerando que o artigo foi escrito com base numa aplicação da ciência relativamente recente e com técnicas analíticas desatualizadas, serve de referência para estabelecer as bases de uma tecnologia.
No sumário (página 3) junto com artigos dedicados aos apaixonados por novidades como a construção de um projetor de slides em sua oficina doméstica, ou os cuidados com os plugs elétricos, ou ainda a 3ª parte do projeto do iate Sea Craft está na página 130 a indicação dessa novidade da ciência aplicada que é a localização de depósitos minerais por meio do estudo da acumulação de metais em espécies vegetais.

Na primeira página do artigo, uma indicação jornalística de que um prospector fez fortuna descobrindo um depósito de ouro, ao seguir as indicações dos talos de uma erva cauda-de-cavalo (horsetail weed). Essa erva é um Equisetum que tem a capacidade de acumular ouro, cobre, chumbo, cadmio e zinco. Acumula também silica o que torna suas folhas ásperas e com bordas cortantes (http://www.gardenorganic.org.uk/organicweeds/weed_information/weed.php?id=10). Na mesma página, tres fotos mostram prospectores coletando amostras de vegetais em frascos de vidro para análise química, observando um mapa com a localização das amostras e seu uso na localização de depósitos minerais e a a última a coleta de amostras de água fluvial para prospecção hidrogeoquímica, já que "streams may carry minerals.".
O artigo faz referência ao "engenheiro de minas finlandês Kalervo Rankama" que usando folhas de bétula, localizou um jazimento de Cu-Ni escondido sob espesso depósito glacial e aos prospectores chilenos que encontraram um jazimento de Cu na região andina seguindo as indicações fornecidas por uma erva comum.
Os "segredos" da geobotânica são desvendados pelo Dr. John Herman químico de Los Angeles, que explica que os metais traço se concentram em orgãos específicos dos vegetais, folhas, frutos e flores, que ele encontrou Ag em batatas, propriedades que são usadas pelos prospectores para encontrar depósitos minerais.
As amostras são colocadas em um forno elétrico e as cinzas do material são analisadas por espectografia óptica de emissão que produz um negativo fotográfico no qual as raias negras mostram os metais presentes.
Se os teores dos metais esperados numa planta "indicadora" forem ultrapassados pelos da amostra analisada, isso será uma excelente indicação que o prospector está no caminho certo. Marcando os resultados analíticos em um mapa ele poderá delimitar as maiores concentrações do metal nos vegetais e assim correlacioná-los com a presença de um depósito mineral.
Da mesma forma, os rios de uma área podem ser amostrados, e a posição da amostra indicada num mapa. No laboratório, as análises são feitas em um polarógrafo - antigo equipamento analítico baseado na diferença de potencial entre um fluxo de mercúrio metálico puro e depois de a amostra ser acrescentada. Novamente o Dr. Hermann é citado pela sua experiência em analisar centenas de amostras e ser capaz de detectar valores tão baixos quanto "inacreditáveis poucas partes em 100,000,000" (o que significa centésimos de ppm).
Tudo isso fica mais "inacreditável" quando observarmos as fotografias do laboratório do Dr. Herman na página 133 e comparamos as condições de asseio com os padrões de qualidade nos laboratórios atuais.
A referência à toxicidade dos metais em diferentes espécies é muito atual com o período "Like human beings, different plants have different tastes. One craves a mineral which may be poisonous to another". Diversos exemplos de vegetais indicadores diretos são citados, como a Amorpha canescens, a chave para depósitos de Pb no Missouri.
Finaliza o artigo fazendo referência a relação existente entre a sanidade vegetal em plantações que pode ser desequilibrada por excessos e deficiências em diversos elementos.
domingo, 30 de outubro de 2011
Foi um sucesso absoluto !
O XIII Congesso Brasileiro de Geoquímica que aconteceu em Gramado no início de outubro foi um sucesso absoluto. Cerca de 600 inscritos (200 profissionais, 200 estudantes de graduação e 200 pós graduandos) e convidados, responsáveis por cerca de 500 palestras, exposições orais e posteres e um mesa redonda. Diversos convidados brasileiros e estrangeiros apresentaram suas experiências e conhecimento em palestras plenárias. A Comissão Organizadora comandada pelo Prof André Mexias da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, merece os parabéns pela estrutura e distribuição dos temas, infraestrutura e escolha do local.
O XIV Congresso Brasileiro de Geoquímica ocorrerá em 2013 em Diamantina, MG e o XV CBGq de 2015, tem a cidade de Natal, RN como local indicativo de sede.
O XIV Congresso Brasileiro de Geoquímica ocorrerá em 2013 em Diamantina, MG e o XV CBGq de 2015, tem a cidade de Natal, RN como local indicativo de sede.
domingo, 23 de outubro de 2011
Demorou mas chegou !
CNPq divulga diretrizes éticas para a pesquisa
Fonte: http://www.cnpq.br/
A comissão, coordenada pelo diretor de Ciências Agrárias, Biológicas e da Saúde do CNPq, Paulo Sergio Lacerda Beirão, foi criada em maio último, após denúncia de fraude em publicações científicas envolvendo pesquisadores apoiados pela instituição. De acordo com o presidente do CNPq, Glaucius Oliva, “diante da inexistência de normas internas específicas e instrumentos estabelecidos para o tratamento adequado de ocorrências desta natureza, a Diretoria Executiva decidiu criar uma Comissão Especial, com a missão de propor recomendações e diretrizes sobre o tema da Ética e Integridade na Prática Científica”.
Segundo Beirão, o CNPq constituirá uma comissão permanente para difundir informações sobre pesquisa ética, principalmente sobre o ponto de vista da publicação científica. O mesmo grupo se encarregará de analisar as denúncias que chegarem à instituição. As regras propostas preveem que as denúncias de infrações serão submetidas a um juízo prévio da comissão permanente. Se julgadas verossímeis, o CNPq criará uma comissão extraordinária de especialistas para análise do caso. A Comissão entende que é preciso cuidado “para não se estimular denúncias falsas ou infundadas”. “A investigação não caberá à instituição onde o cientista trabalha”, informa Beirão, “pois queremos garantir imparcialidade”, destaca.
O texto proposto tipifica quatro condutas ilícitas, a falsificação, a fabricação de resultados, o plágio e o autoplágio, este definido como a republicação de resultados científicos já divulgados como se fossem novos, sem informar a publicação prévia. Condena também a inclusão de pessoas como autores, que só tenham emprestado equipamentos ou verba, sem participação intelectual no artigo científico.
As punições para os delitos mais graves incluem a suspensão de financiamento por meio de bolsas e, eventualmente, a devolução do recurso investido pelo CNPq no trabalho. O diretor Beirão explica que a instituição é uma agência de fomento, não pode demitir pessoas ligadas a outras entidades, “o máximo que conseguimos é cortar o investimento”.
Como parte das ações preventivas, o CNPq deve estimular que disciplinas com conteúdo ético e de integridade de pesquisa sejam oferecidas nos cursos de graduação e pós-graduação.
Fonte: http://www.cnpq.br/
sábado, 1 de outubro de 2011
Falta apenas uma semana !
A cada dois anos se realiza o Congresso Brasileiro de Geoquímica. Daqui uma semana, a 13ª edição acontecerá em Gramado, RS, junto com o III Simpósio de Geoquímica dos Países do Mercosul.
Uma grande programação técnica, um local adequado para dois eventos simultâneos e uma cidade espetacular para turismo (Gramado, Canela, São Francisco de Paula, Itaimbezinho e muitos outros).
Veja toda programação em http://geoquimica.eventize.com.br/
Se você estava em dúvida, ainda há tempo para fazer a sua inscrição, reservar o hotel e comprar a sua passagem. Até lá !
domingo, 11 de setembro de 2011
Um vulcanólogo, talvez o primeiro deles
Há poucos dias recebi o livro Volcanoes - Fire from the Earth de Maurice Kraf, que comprei na Amazon. Apesar do formato de pocket book, é um livro belíssimo, lindamente ilustrado, que faz uma profunda revisão da vulcanologia desde os primórdios até 1991 quando Maurice e sua esposa Katia, morreram na erupção do Unzen em 3 de Junho de 1991 (veja a postagem de 6 de março de 2011).
As referências feitas a George Poulett Scrope, frequentemente citado como quem teria usado pela primeira vez o termo "peperito" na região de Auvergne, França, me fizeram pesquisar melhor sua obra e buscar sua biografia.
George Julius Thompson (era seu nome de batismo), nasceu em 10/03/1797 em Londres. Estudou em escolas reservadas a filhos de familias abastadas como o Harrow School (onde também estudaram Winston Churchill e Jawaharlal Nehru). Em 1816 foi transferido para o St. John's College em Cambridge, onde teve contato com os professores Clarke e Sedgwick que lhe incutiram a paixão pela geologia e especialmente pela vulcanologia. Em 1817-18 viajou com os pais para o sul da Itália onde teve o primeiro contato com o Vesúvio. Em 1818 adotou o sobrenome Poulett, de um ramo aristocrático de sua familia. Anos depois, casou-se com Emma Phipps Scrope, de quem adotou o sobrenome (a pronúncia é Scrup) em substituição ao Thompson. Foi assim que surgiu o nome conhecido dos vulcanologistas, George Julius Poulett Scrope (que era um sósia perfeito do músico italiano Giuseppe Verdi - veja ao lado). Era um magistrado, político, economista e cientista social, atividades que deviam garantir o sustento da família e financiar suas pesquisas e expedições científicas. Foi amigo e parceiro de Charles Lyell na consolidação dos conceitos do Uniformitarismo e batalharam juntos contra o Netunismo de Werner. Visitou os centros eruptivos de Auvergne, sul da Itália, Ilhas Lipari e Eifel. Ele estudou as acumulações de cinza e lava que compõem os cones e provou que derrames espessos podem avançar mesmo em vertentes com mais de 30°, confrontando seriamente as teorias de Leopold von Buch de que os aparelhos vulcânicos se elevavam por uma "força vulcânica interna" e que seus cumes teriam se abatido, formando assim as crateras circulares. Mas a maior contribuição de George Scrope foi mostrar a importância dos gases e da água contidos no magma em profundidade, os quais estão sob pressão devida ao peso das rochas sobrejacentes. Na menor queda de pressão, os gases se separam do material sólido e a água se transforma em vapor, provocando a ascenção do material fundido e a subsequente erupção. Ele também relatou que quando um vulcão emite uma sucessão de diversos tipos de lava (por exemplo, basaltica seguida por traquítica) é porque os processos químicos modificaram lentamente a composição do magma no reservatório, e que a fluidez da lava, depende de sua composição mineralógica, seu conteúdo em gases e sua temperatura. Ele acreditava que o magma era o resultado do calor produzido no nascimento de nosso planeta. Com sua perspicácia na observação da natureza, lançou as bases da vulcanologia moderna.
Para saber mais:
Kraft, M. (1993) Volcanoes - Fire from the Earth. Harry N. Abrahams. New York. 207 p.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Carta Aberta sobre o “Rio Hamza”
A idéia "revolucionária" lançada por pesquisadores do Observatório Nacional de que existe um rio sob o Amazonas, tão ou maior que ele, mas que flui a razão de centimetros a cada ano, foi amplamente divulgada na imprensa nacional e internacional. Diversos geólogos participantes da rede de discussão da FEBRAGEO - Federação Brasileira de Geólogos, discutiram amplamente essa idéia e redigiram um texto que manifesta sua opinião contrária, com o qual concordo integralmente:
Uma ideia subjetiva foi apresentada durante o 12º Congresso Internacional da Sociedade Brasileira de Geofísica, no Rio de Janeiro, e divulgada na mídia no mês de agosto de 2011: "abaixo do Rio Amazonas, no interior das rochas a4.000 metros de profundidade, haveria um "rio subterrâneo" com 6.000 km de comprimento e 400 km de largura”.
Uma ideia subjetiva foi apresentada durante o 12º Congresso Internacional da Sociedade Brasileira de Geofísica, no Rio de Janeiro, e divulgada na mídia no mês de agosto de 2011: "abaixo do Rio Amazonas, no interior das rochas a
Tal trabalho seria apenas criticável no âmbito da ciência, se restrito aos círculos acadêmicos. No entanto, para surpresa da comunidade geológica, a comunicação, que estava restrita ao Congresso, foi enviada, provavelmente via release, a inúmeros veículos de divulgação científica e não científica.
A divulgação de um resultado de pesquisa simplista, que usou dados concretos para chegar a conclusões improváveis, inclusive usando definições incorretas, prejudica a divulgação da ciência e desinforma o público. Proveniente de um grupo de pesquisa do Observatório Nacional, a informação correu mundo sob o nome "Rio Hamza", em alusão a um dos envolvidos na pesquisa. Entretanto, trata-se de uma conclusão precipitada de uma tese de doutorado baseada em dados indiretos - medidas de temperaturas de poços para petróleo perfurados a partir dos anos 1970. Além disso, a conclusão não foi avaliada por pesquisadores independentes e contém uma série de imprecisões de interpretação e de linguagem, ferindo conceitos arraigados nas Geociências.
O rio Amazonas atravessa, de oeste para leste, sucessivamente cinco grandes bacias sedimentares, denominadas Acre, Solimões, Amazonas, Marajó e Foz do Amazonas. Em geologia, “bacia sedimentar” significa uma depressão que, ao longo do tempo, recebe diferentes materiais sedimentares (areia, lama, etc) de uma ou mais fontes. Essas bacias estão preenchidas por uma sucessão de camadas de rochas sedimentares com milhares de metros de espessura. Quando porosas, as rochas contêm água subterrânea, situação comum em bacias sedimentares. Se, além de porosas, as rochas forem permeáveis (os poros interconectados), em geral há fluxo de água subterrânea, normalmente com velocidades medidas em cm/ano. A situação também é normal em bacias sedimentares e os diversos aquíferos das bacias atravessadas pelo Rio Amazonas são conhecidos e vem sendo estudados há tempos pelos geólogos brasileiros.
Uma explicação aceita pela ciência geológica brasileira é de que o “Rio Hamza”, “descoberto” pelos geofísicos do Observatório Nacional, não é um rio, mas um possível fluxo muito lento no interior de um aquífero formado por rochas sedimentares porosas e permeáveis. Mesmo como figura de linguagem, o termo “rio subterrâneo” utilizado por aqueles pesquisadores está absolutamente incorreto para o caso em questão, visto que esse termo é usado, e apenas com cautela, nas situações em que águas fluem através de cavernas. A água não é doce – a essa profundidade trata-se de uma água supersaturada em sais solúveis, ou seja, uma salmoura. Não está comprovada a continuidade do aquífero profundo por 6.000 km , nem se faz ideia se há descarga de suas águas para outras bacias sedimentares próximas. É uma temeridade afirmar, como se fez na Tese em debate, que a água deste aquífero exerceria alguma influência na salinidade de águas marinhas próximo à foz do atual rio Amazonas. A existência de “bolsões de água doce” no Oceano Atlântico próximo deve-se à tremenda descarga do Rio Amazonas, cujas águas invadem o mar por muitos quilômetros desde sua foz.
A forma equivocada de divulgação de resultados de pesquisa, ainda preliminares, abala a credibilidade da pesquisa brasileira, como neste caso, em que a “descoberta” de um falso "rio subterrâneo" foi alardeada de maneira precipitada e sensacionalista.
Os signatários desta carta aberta vêm, de forma responsável, contestar as conclusões tomadas como certas, mas que na verdade carecem de qualquer sentido técnico à luz da ciência geológica que se pratica no Brasil e no mundo.
Prof. Dr. Celso Dal Ré Carneiro (UNICAMP)
Prof. Dr. Eduardo Salamuni (UFPR)
Prof. Dr. Luiz Ferreira Vaz (UNICAMP)
Prof. Dr. Heinrich Theodor Frank (UFRGS)
Apoio: Federação Brasileira de Geólogos - FEBRAGEO
Associação Profissional Sulbrasileira de Geólogos - APSG
Sociedade Brasileira de Geologia - Núcleo Rio Grande do Sul e Santa Catarina SBG-RS/SC
Associação Profissional Sulbrasileira de Geólogos - APSG
Sociedade Brasileira de Geologia - Núcleo Rio Grande do Sul e Santa Catarina SBG-RS/SC
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