segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Fé de mais ou fé de menos ?

Deus é um conceito criado pelos homens para seu conforto espiritual, para minimzar seus medos, para explicar o desconhecido e agir como uma válvula de escape para a limitação de nosso conhecimento científico. Quando no século XVI, Vasco da Gama, Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio e Pedr'Álvares Cabral, partiram da Europa com suas caravelas iniciando uma era de grandes descobrimentos e uma profunda revolução do conhecimento e da cultura ocidentais, o maior temor deles era que pudessem cair da borda do mundo, imaginado como um grande prato apoiado nas costas de enormes elefantes ou então que seriam devorados por serpentes e monstros marinhos. Para qualquer eventualidade, a bordo estava sempre um capelão - lembram do Frei Henrique de Coimbra ?
A minha opinião, um geólogo com 62 anos de idade e 36 anos de profissão, formado pela UFRGS, uma universidade federal pública e gratuita é que, se alguém quiser acreditar em Deus, não tenho nada a opor. Pelo contrário, cada um acredita no que quer e no que lhe faz bem. Mas por favor, que não se misturem as coisas ! Ciência e religião são como água (benta?) e azeite de oliva (de primeira prensagem): jamais se misturam e sempre serão duas fases separadas e distintas. Mas se essa imiscível mistura continuar, estarão se  estabelecendo limites inaceitáveis para o processo de investigação científica.

Nunca é demais lembrar que a natureza não é uma acumulação acidental de objetos, de fenômenos isolados e independentes, mas um todo unido e coerente, onde os fenômenos são interligados, dependem mutuamente e se condicionam reciprocamente. A natureza não está em estado de repouso e de estagnação, mas em movimento incessante e mudança perpétua de renovação e desenvolvimento, onde sempre algo novo nasce e se desenvolve e algo se desagrega e desaparece. Lembrem que o processo de desenvolvimento resulta de uma soma de insignificantes mudanças quantitativas para mudanças qualitativas aparentes e radicais; que as mudanças qualitativas não são graduais, mas rápidas, súbitas e operam aos saltos de um estado para outro e são o resultado da acumulação de mudanças quantitativas insensíveis e graduais. Que os fenômenos e objetos da natureza implicam em contradições internas, portanto eles têm sempre um lado positivo e um negativo, um passado e um futuro, todos têm elementos que desaparecem ou que se desenvolvem; a luta desses contrários, a luta do antigo e do novo, entre o que morre e o que nasce, entre o que perece o que se desenvolve, é o conteúdo interno do processo de desenvolvimento, da conversão das mudanças quantitativas em mudanças qualitativas. Se você que chegou até aqui nunca leu esse texto ecologicamente correto e acha que foi escrito por um guru indiano ou um monge budista ou por Fritjof Capra (aquele do Ponto de Mutação, já leu ?), saiba que ele trata da Dialética da Natureza, está no parágrafo 2, do Capítulo IV escrito por Joseph Stalin no compêndio da História do Partido Comunista da URSS, um autor evidente, decidida e historicamente ateu e agnóstico.

Finalizo dizendo que geólogos ou cientistas da Terra, têm a obrigação de desconfiar e duvidar sempre. Essa é a base do processo científico e é assim que a ciência progride. Esse é o monumental abismo que separa e divide os mundos científicos e religiosos, pois dos dogmas da religião nunca se duvida, neles apenas se crê. Devem acostumar-se sempre a desconfiar e a duvidar da história contada pelos vencedores. Normalmente ela contém armadilhas e desvios colocados propositalmente para iludir e “pegar os ratões” de espírito crédulo e pacífico. Sabiam que Pedr'Álvares foi precedido por dois espanhóis, Diego de Leppe e Vicente Yañez Pinzón, que velejaram pela costa do Brasil alguns meses antes de que Cabral chegasse a Porto Seguro em 21 de abril de 1500 ?

Se vocês quiserem ter uma outra visão da natureza, recomendo a leitura de Notas Introdutórias à Lógica Dialética, de Caio Prado Júnior, Editora Brasiliense, 1968.

7 comentários:

  1. Parabéns pelo texto. Concordo que tanto a universidade pública como suas formaturas devam ser laicas.
    Abraços,
    Maria Jose Mesquita

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  2. Excelente texto, tenho absoluta certeza de que todos os cientistas presentes na solenidade pensam da mesma forma.

    GEOabraço

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  3. Concordo com o colega Otávio, e com as colegas acima. Creio que cada um tem a sua "fé" - lembrando que o termo "fé" abrange muito mais do que religião. Contudo, como profissionais e cientistas, temos que manter um ponto de vista pragmático, cético e, sobretudo, laico. Só nos tornamos imparciais, quando adotamos atitudes imparciais.

    Fábio Maciel Pinto

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  4. Se a geóloga recém-formada conhecesse o básico de epistemologia da ciência, principalmente Popper e Khun, não teria tido aquele comportamento.

    Como se não bastasse, a geóloga incorreu em mais dois erros. Primeiro. Ela fez proselitismo religioso em um local que pertence ao Estado brasileiro, que é laico.

    E, segundo, ela esqueceu que na platéia existiam pessoas que poderiam não compartilhar da crença no mesmo deus que o dela ou até mesmo pessoas que não acreditam na existência de deus, seja ele qual for.

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  5. Concordo com a afirmação de que Ciência e Religião não devem ser misturadas. Afinal quanto mais se duvida da ciência, mais ela fortalece; quanto mais se duvida da religião, mais ela enfraquece.
    “Fé demais ofusca a visão”, mas “fé de menos” cega!!! Vejam! Todos que responderam afirmativamente (os fé de menos) deixaram de observar os seguintes pontos muito significativos:

    1) Reza o senso comum que não se critica a “noiva no dia do casamento”.

    2) Não é elegante para os convidados fazerem comentários pejorativos da “festa”

    3) Existe o tempo oportuno para tudo: o momento certo para criticar e elogiar, neste caso apenas congratular.
    4) A responsabilidade de quem começa é menor do que a de quem termina.

    5) O texto poderia ter sido escrito sem qualquer vínculo com a formatura e teria o mesmo efeito. Mas a busca insana por um ideal próprio corrompeu o respeito pelos que começam.

    6) A intolerância conduziu a humanidade ao período mais sombrio de toda a história: a “Santa Inquisição”. Outrora, os castigos eram físicos e atingia a quem pensava diferente da Igreja. Identifiquei neste texto “castigos” morais e profecias infundadas para os hereges “fé de mais”. Esta formatura ficará marcada para sempre e todas as vezes que for lembrada, trará consigo as mágoas de uma crítica inoportuna e suposições sem base real “...Não satisfeita com essa prova de que infelizmente jamais será uma cientista...”.


    Espero sinceramente que as pessoas que apoiaram este texto revejam seus valores, e não permitam que a intolerância e foco único direcionem suas vidas. Ciência e religião devem manter-se distantes, sim, mas o amor deve estar presente tanto na religião como também na ciência.

    Rogério Besser

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  6. Caro Otávio
    Concordo totalmente com você, e fico com medo do que eu estou vendo, um avanço do obscurantismo religioso até nas nossas melhores universidades.
    Tive oportunidade até de medir isto, em trabalho curricular do curso de Metodologia Científica que ministrava no curso de Licenciatura em Geociências - existe uma aceitação acrítica de religiões, criacionismo e terapias não médicas por grande parte dos alunos da USP.
    Precisamos reafirmar o caráter crítico da ciências e a condição laica da Universidade e do Estado, afirmadas na Constituição e negadas todos dias pelos governantes.

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  7. Mais um idiota arrogante que se acha conhecedor de tudo. Também sou geólogo e acho que, esse tipo de opinião vem de um frustrado que aos 62 anos não realizou o que sonhou.

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