domingo, 23 de outubro de 2011

Demorou mas chegou !

CNPq divulga diretrizes éticas para a pesquisa


A comissão, coordenada pelo diretor de Ciências Agrárias, Biológicas e da Saúde do CNPq, Paulo Sergio Lacerda Beirão, foi criada em maio último, após denúncia de fraude em publicações científicas envolvendo pesquisadores apoiados pela instituição. De acordo com o presidente do CNPq, Glaucius Oliva, “diante da inexistência de normas internas específicas e instrumentos estabelecidos para o tratamento adequado de ocorrências desta natureza, a Diretoria Executiva decidiu criar uma Comissão Especial, com a missão de propor recomendações e diretrizes sobre o tema da Ética e Integridade na Prática Científica”.
Segundo Beirão, o CNPq constituirá uma comissão permanente para difundir informações sobre pesquisa ética, principalmente sobre o ponto de vista da publicação científica. O mesmo grupo se encarregará de analisar as denúncias que chegarem à instituição. As regras propostas preveem que as denúncias de infrações serão submetidas a um juízo prévio da comissão permanente. Se julgadas verossímeis, o CNPq criará uma comissão extraordinária de especialistas para análise do caso. A Comissão entende que é preciso cuidado “para não se estimular denúncias falsas ou infundadas”. “A investigação não caberá à instituição onde o cientista trabalha”, informa Beirão, “pois queremos garantir imparcialidade”, destaca.
O texto proposto tipifica quatro condutas ilícitas, a falsificação, a fabricação de resultados, o plágio e o autoplágio, este definido como a republicação de resultados científicos já divulgados como se fossem novos, sem informar a publicação prévia. Condena também a inclusão de pessoas como autores, que só tenham emprestado equipamentos ou verba, sem participação intelectual no artigo científico.
As punições para os delitos mais graves incluem a suspensão de financiamento por meio de bolsas e, eventualmente, a devolução do recurso investido pelo CNPq no trabalho. O diretor Beirão explica que a instituição é uma agência de fomento, não pode demitir pessoas ligadas a outras entidades, “o máximo que conseguimos é cortar o investimento”.
Como parte das ações preventivas, o CNPq deve estimular que disciplinas com conteúdo ético e de integridade de pesquisa sejam oferecidas nos cursos de graduação e pós-graduação.

Fonte: http://www.cnpq.br/

sábado, 1 de outubro de 2011

Falta apenas uma semana !

A cada dois anos se realiza o Congresso Brasileiro de Geoquímica. Daqui uma semana, a 13ª edição acontecerá em Gramado, RS, junto com o III Simpósio de Geoquímica dos Países do Mercosul.
Uma grande programação técnica, um local adequado para dois eventos simultâneos e uma cidade espetacular para turismo (Gramado, Canela, São Francisco de Paula, Itaimbezinho e muitos outros).
Veja toda programação em http://geoquimica.eventize.com.br/
Se você estava em dúvida, ainda há tempo para fazer a sua inscrição, reservar o hotel e comprar a sua passagem. Até lá !

domingo, 11 de setembro de 2011

Um vulcanólogo, talvez o primeiro deles

Há poucos dias recebi o livro Volcanoes - Fire from the Earth de Maurice Kraf, que comprei na Amazon. Apesar do formato de pocket book, é um livro belíssimo, lindamente ilustrado, que faz uma profunda revisão da vulcanologia desde os primórdios até 1991 quando  Maurice e sua esposa Katia, morreram na erupção do Unzen em 3 de Junho de 1991 (veja a postagem de 6 de março de 2011).
As referências feitas a George Poulett Scrope, frequentemente citado como quem teria usado pela primeira vez o termo "peperito" na região de Auvergne, França, me fizeram pesquisar melhor sua obra e buscar sua biografia.
George Julius Thompson (era seu nome de batismo), nasceu em 10/03/1797 em Londres. Estudou em escolas reservadas a filhos de familias abastadas como o Harrow School (onde também estudaram Winston Churchill e Jawaharlal Nehru). Em 1816 foi transferido para o St. John's College em Cambridge, onde teve contato com os professores Clarke e Sedgwick que lhe incutiram a paixão pela geologia e especialmente pela vulcanologia. Em 1817-18 viajou com os pais para o sul da Itália onde teve o primeiro contato com o Vesúvio. Em 1818 adotou o sobrenome Poulett, de um ramo aristocrático de sua familia. Anos depois, casou-se com  Emma Phipps Scrope, de quem adotou o sobrenome (a pronúncia é Scrup) em substituição ao Thompson. Foi assim que surgiu o nome conhecido dos vulcanologistas, George Julius Poulett Scrope (que era um sósia perfeito do músico italiano Giuseppe Verdi - veja ao lado). Era um magistrado, político, economista e cientista social, atividades que deviam garantir o sustento da família e financiar suas pesquisas e expedições científicas. Foi amigo e parceiro de Charles Lyell na consolidação dos conceitos do Uniformitarismo e batalharam juntos contra o Netunismo de Werner. Visitou os centros eruptivos de Auvergne, sul da Itália, Ilhas Lipari e Eifel. Ele estudou as acumulações de cinza e lava que compõem os cones e provou que derrames espessos podem avançar mesmo em vertentes com mais de 30°, confrontando seriamente as teorias de Leopold von Buch de que os aparelhos vulcânicos se elevavam por uma "força vulcânica interna" e  que seus cumes teriam se abatido, formando assim as crateras circulares. Mas a maior contribuição de George Scrope foi mostrar a importância dos gases e da água contidos no magma em profundidade, os quais estão sob pressão devida ao peso das rochas sobrejacentes.  Na menor queda de pressão, os gases se separam do material sólido e a água se transforma em vapor, provocando a ascenção do material fundido e a subsequente erupção. Ele também relatou que quando um vulcão emite uma sucessão de diversos tipos de lava (por exemplo, basaltica seguida por traquítica) é porque os processos químicos modificaram lentamente a composição do magma no reservatório, e que a fluidez da lava, depende de sua composição mineralógica, seu conteúdo em gases e sua temperatura. Ele acreditava que o magma era o resultado do calor produzido no nascimento de nosso planeta. Com sua perspicácia na observação da natureza,  lançou as bases da vulcanologia moderna.

Para saber mais:
Kraft, M. (1993) Volcanoes - Fire from the Earth. Harry N. Abrahams. New York. 207 p. 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Carta Aberta sobre o “Rio Hamza”

A idéia "revolucionária" lançada por pesquisadores do Observatório Nacional de que existe um rio sob o Amazonas, tão ou maior que ele, mas que flui a razão de centimetros a cada ano, foi amplamente divulgada na imprensa nacional e internacional. Diversos geólogos participantes da rede de discussão da FEBRAGEO - Federação Brasileira de Geólogos, discutiram amplamente essa idéia e redigiram um texto que manifesta sua opinião contrária, com o qual concordo integralmente: 
            Uma ideia subjetiva foi apresentada durante o 12º Congresso Internacional da Sociedade Brasileira de Geofísica, no Rio de Janeiro, e divulgada na mídia no mês de agosto de 2011: "abaixo do Rio Amazonas, no interior das rochas a 4.000 metros de profundidade, haveria um "rio subterrâneo" com 6.000 km de comprimento e 400 km de largura”.
            Tal trabalho seria apenas criticável no âmbito da ciência, se restrito aos círculos acadêmicos. No entanto, para surpresa da comunidade geológica, a comunicação, que estava restrita ao Congresso, foi enviada, provavelmente via release, a inúmeros veículos de divulgação científica e não científica.
            A divulgação de um resultado de pesquisa simplista, que usou dados concretos para chegar a conclusões improváveis, inclusive usando definições incorretas, prejudica a divulgação da ciência e desinforma o público. Proveniente de um grupo de pesquisa do Observatório Nacional, a informação correu mundo sob o nome "Rio Hamza", em alusão a um dos envolvidos na pesquisa. Entretanto, trata-se de uma conclusão precipitada de uma tese de doutorado baseada em dados indiretos - medidas de temperaturas de poços para petróleo perfurados a partir dos anos 1970. Além disso, a conclusão não foi avaliada por pesquisadores independentes e contém uma série de imprecisões de interpretação e de linguagem, ferindo conceitos arraigados nas Geociências.
            O rio Amazonas atravessa, de oeste para leste, sucessivamente cinco grandes bacias sedimentares, denominadas Acre, Solimões, Amazonas, Marajó e Foz do Amazonas. Em geologia, “bacia sedimentar” significa uma depressão que, ao longo do tempo, recebe diferentes materiais sedimentares (areia, lama, etc) de uma ou mais fontes. Essas bacias estão preenchidas por uma sucessão de camadas de rochas sedimentares com milhares de metros de espessura. Quando porosas, as rochas contêm água subterrânea, situação comum em bacias sedimentares. Se, além de porosas, as rochas forem permeáveis (os poros interconectados), em geral há fluxo de água subterrânea, normalmente com velocidades medidas em cm/ano. A situação também é normal em bacias sedimentares e os diversos aquíferos das bacias atravessadas pelo Rio Amazonas são conhecidos e vem sendo estudados há tempos pelos geólogos brasileiros.
            Uma explicação aceita pela ciência geológica brasileira é de que o “Rio Hamza”, “descoberto” pelos geofísicos do Observatório Nacional, não é um rio, mas um possível fluxo muito lento no interior de um aquífero formado por rochas sedimentares porosas e permeáveis. Mesmo como figura de linguagem, o termo “rio subterrâneo” utilizado por aqueles pesquisadores está absolutamente incorreto para o caso em questão, visto que esse termo é usado, e apenas com cautela, nas situações em que águas fluem através de cavernas. A água não é doce – a essa profundidade trata-se de uma água supersaturada em sais solúveis, ou seja, uma salmoura. Não está comprovada a continuidade do aquífero profundo por 6.000 km, nem se faz ideia se há descarga de suas águas para outras bacias sedimentares próximas. É uma temeridade afirmar, como se fez na Tese em debate, que a água deste aquífero exerceria alguma influência na salinidade de águas marinhas próximo à foz do atual rio Amazonas. A existência de “bolsões de água doce” no Oceano Atlântico próximo deve-se à tremenda descarga do Rio Amazonas, cujas águas invadem o mar por muitos quilômetros desde sua foz.
            A forma equivocada de divulgação de resultados de pesquisa, ainda preliminares, abala a credibilidade da pesquisa brasileira, como neste caso, em que a “descoberta” de um falso "rio subterrâneo" foi alardeada de maneira precipitada e sensacionalista.
            Os signatários desta carta aberta vêm, de forma responsável, contestar as conclusões tomadas como certas, mas que na verdade carecem de qualquer sentido técnico à luz da ciência geológica que se pratica no Brasil e no mundo.
Prof. Dr. Celso Dal Ré Carneiro (UNICAMP)
Prof. Dr. Eduardo Salamuni (UFPR)
Prof. Dr. Luiz Ferreira Vaz (UNICAMP)
Prof. Dr. Heinrich Theodor Frank (UFRGS)
Apoio: Federação Brasileira de Geólogos - FEBRAGEO
Associação Profissional Sulbrasileira de Geólogos - APSG
Sociedade Brasileira de Geologia - Núcleo Rio Grande do Sul e Santa Catarina SBG-RS/SC

sábado, 3 de setembro de 2011

The Ig Nobel Prizes

"Last, but not least, there are the Ig Nobel awards. These come with little cash, but much cachet, and reward those research projects that 'first make people laugh, and then make them think."
Essa foi a referência elogiosa do clássico e respeita-do periódico científico Nature ao evento de premiação anual que celebra, desde 1991, as pesquisas insólitas que refletem o interesse das pessoas pela ciência, medicina, literatura, paz e tecnologia.

Selecionei alguns dos medalhistas Ig Nobel entre as dezenas de espetaculares descobertas científicas e inventos que mostram a enorme capacidade do ócio criativo.
 
1991 - Química  – Jacques Beneviste, um dedicado e prolífico correspondente de Nature, pelo seu persistente pesquisa e descoberta de que a água, H2O, é um liquido inteligente e por demonstrar que a água é capaz de lembrar eventos e fatos mesmo depois que esses fatos se esvaneceram.
1992 - Arqueologia – Eclaireurs de France (uma organização de escoteiros da França), removedores de grafitti, por danificar as pinturas rupestres  de dois bisões na Caverna de Mayriére, próximo da vila de Bruniquel, França.
1992 - Literatura – Yuri Struchkov, um frenético autor do Institute of Organoelements Compounds de Moscow, pelos 948 artigos científicos publicados entre 1981 e 1990, o que dá uma média de um artigo a cada 3,9 dias.
1992 - Medicina – F. Kanda, E. Yagi, M. Fukuda, K. Nakajima, T. Ohta, e O. Nakata do Shideido Research Center de Yokohama, pela sua pesquisa pioneira "Elucidation of Chemical Compounds Responsible for Foot Malodour," (Elucidação dos Compostos Quimicos Responsáveis pelo Chulé) especialmente por sua conclusão de que pessoas que pensam que têm chulé estão certas, e aquelas que acham que não têm, também estão.
1993 - Literatura – T. Morrison,E. Topol, R. Califf, F. Van de Werf, P. W. Armstrong, e seus 972 co-autores, por publicar um artigo de pesquisa médica que tem 100 vezes mais autores do que páginas. Os co-autores são dos seguintes países Australia, Bélgica, Canada, França, Alemanha, Irlanda, Israel, Luxemburgo, Holanda, Nova Zelândia, Polônia, Espanha, Suiça, Reino Unido e Estados Unidos.
1993 - Nutrição – John Martinez da J. Martinez & Company, Atlanta, pelo Luak Coffee o café mais caro do mundo que é feito com grãos de cafe ingeridos e excretados pelo luak, um mamífero nativo da Indonésia.
1993 - Medicina – James F. Nolan, Thomas J. Stillwell, e John P. Sands, Jr., médicos piedosos do Department of Urology, Naval Hospital, San Diego, California,  pelo seu relatório de pesquisa "Acute Management of the Zipper-Entrapped Penis" (Solução da Crise do Pênis Preso no Zipper).
1993 - Paz – Pepsi-Cola Company das Filipinas, por patrocinar um concurso para criar um milionário e anunciar um número vencedor errado, e assim incitando 800.000 furiosos concorrentes e unindo, pela primeira vez na história da Filipinas, diversas façções em guerra.
1994 - Matemática - Igreja Batista do Alabama,  mensuradora da moralidade, por sua estimativa condado a condado de quantos cidadãos do Alabama iriam para o inferno se não redimissem seus pecados
1997 - Entomologia - Mark Hostetler da Universidade da Florida por seu livro, That Gunk on Your Car, (ISBN 978-0-89815-961-5) que identifica os insetos esborrachados nos parabrisas dos automóveis.
1999 - Educação da Ciência – Ao Conselho de Educação do Estado do Kansas e ao Conselho de Educação do Estado do Colorado, USA por ordenar que as crianças não devem acreditar na teoria da evolução de Darwin, na teoria da gravitação de Newton, na teoria do eletromagnetismo de Faraday e Maxwell e na teoria que germes provocam doenças de Pasteur .
2002 - Medicina -  Peter Brass da Universidade McGill, Canada pelo seu artigo médico de grande impacto "Injuries Due to Falling Coconuts" (Danos provocados pela queda de cocos)
2005 - Paz - Claire Rind e Peter Simmons da Universidade de Newcastle, pelo monitoramento da atividade elétrica das células cerebrais de gafanhotos, enquanto o animal observava cenas selecionadas do filme Guerra nas Estrelas.
2007 - Aviação - Patricia V. Agostino, Santiago A. Plano e Diego A. Golombek, pela descoberta de que hamsters se recuperam mais rapidamente do jetlag se ingerirem Viagra.
2008 - Química - Sheree Umpierre, Joseph Hill, e Deborah Anderson, por descobrirem que Coca Cola é um eficiente espercimida e para C.Y. Hong, C.C. Shieh, P. Wu, e B.N. Chiang que acidentalmente provaram o contrário.
2009 - Biologia - Fumiaki Taguchi, Song Guofu, e Zhang Guanglei da Universidade Kitasato, Escola de Ciências Médicas de Sagamihara, Japão, por demonstrarem que os resíduos de cozinha podem ser reduzidos em mais de 90% se forem misturados a bactérias extraídas das fezes de pandas gigantes.
2010 - Química - Eric Adams, Scott Socolofsky, Stephen Masutani e a British Petroleum por contariar o antiga crença que petróleo e água não se misturam.
2010 - Gestão de Pessoal - Alessandro Pluchino, Andrea Rapisarda, e Cesare Garofalo da Universidade de Catania, Italia, por demonstarem matematicamente que as empresas tornam-se mais eficientes se os funcionários a serem promovidos forem selecionados aleatoriamente.
2010 - Engenharia - Karina Acevedo-Whitehouse  e Agnes Rocha-Gosselin da Zoological Society of London, UK, e Diane Gendron do Instituto Politecnico Nacional, Baja California Sur, Mexico, por aperfeiçoarem o método de coleta do ranho de baleia, usando um helicóptero com controle remoto.
Em 29 de Outubro de 2011, será realizada a 21 Cerimônia Anual do Prêmio Ig Nobel no Teatro Sander da Universidade de Harvard (foto ao lado) que é patrocinada pelas seguintes instituições Harvard-Radcliffe Society of Physics Students, a Harvard-Radcliffe Science Fiction Association, e a Harvard Computer Society. As entradas para a cerimônia já estão à venda em https://www.boxoffice.harvard.edu/online/default.asp

Fontes: http://improbable.com/ig/ig-pastwinners.html
http://improbable.com/ig/2011/
http://www.fas.harvard.edu/~memhall/sanders.html

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Dear Mr. Darwin

Confesso minha ignorância e nisso tenho a certeza que não estou sozinho. O simpático velhinho da foto ao lado que passou grande parte da vida entre as margens do rio Itajahy-Açu e o Desterro (atual Florianópolis) dividido entre os pesados trabalhos da agricultura, a precisa observação, a meticulosa experimentação científica e a troca de correspondências com Charles Darwin, chamava-se Johann Friedrich Theodor Muller. Nascido em 31 de março de 1822 em Windischholzhausen bei Ehrfurt, Türingen, Fritz era filho e neto de pastores protestantes. Se doutorou em filosofia e completou o curso de medicina mas não recebeu o diploma e a licença para clinicar, pois não concordava com o juramento que deveria proferir, com forte conteúdo religioso e incompatível com suas convicções pessoais. Escandalizou a família ao abjurar a fé cristã, pois a mesma não condizia com suas convicções íntimas. Não conseguiria viver com uma verdade nos lábios e outra no coração. Em 1852, emigroucom a esposa e a filha,  como colono para as margens do Itajaí-Açu onde, há dois anos, o Dr. Blumenau havia fundado a colônia alemã que hoje é a cidade de Blumenau. De 1856 a 1867 Fritz lecionou matemática no Liceu do Desterro, na sede da província de Santa Catarina. Foi quando teve contato com "A Origem das Espécies" e tornou-se um obstinado defensor da teoria da evolução das espécies pela seleção natural. Em 7 de setembro de 1863, Fritz Müller concluiu os doze capítulos do livro "Für Darwin" (Pró Darwin) que foi editado e publicado em Leipzig em 1864.
Na frequente troca de correspondências que manteve com Charles Darwin, ele relatava resultados de experimentos científicos e observações, feitas para matar sua própria curiosidade ou atendendo as solicitações do cientista inglês.
Entre as várias curiosidades que escrevia mescladas a relatos científicos, em uma carta endereçada a Darwin, de 9 de setembro de 1868, Müller contou que "O inverno de 1866 foi incomumente frio e as jacutingas vieram da serra em tão grande número que em poucas semanas foram abatidas no Itajaí aproximadamente 50.000". Dessa maneira, não é de espantar que tenham sobrado poucas...
O seguinte trecho de uma das cartas de Darwin a Muller, mostra a quase intimidade que havia entre os dois, mesmo que nunca tivessessem se encontrado pessoalmente: "Eu lhe agradeço de coração a sua carta. Seus fatos e a discussão sobre a perda dos pelos nas pernas das moscas de Caddis, me parecem a coisa mais importante e interessante que li por um bom tempo. Espero que o senhor não me desaprove, mas enviei sua carta para Nature (...) sua opinião pode ser amplamente extendida, ela será um ganho capital para a doutrina da evolução." Em 27 de novembro de 1880, Charles Darwin escreveu a Hermann Müller, irmão de Fritz Müller, perguntando-lhe quais as perdas que Fritz havia sofrido na enchente que havia ocorrido no vale do Itajaí  "(...) muitos de seus livros, microscópio, instrumentos ou outros patrimônios ?"  e ofereceu ajuda de 50 ou 100 libras pela "causa científica, de tal forma que a ciência não deveria sofrer, devido à perda de seus bens."
Fritz Müller enviou 79 cartas a Charles Darwin e recebeu 58 em resposta. Nas edições de "The Origin", Fritz Muller foi citado 17 vezes. O livro escrito por seu sobrinho Alfred Möller "Fritz Müller - Werke, Briefe und Leben" consolidou a sua obra, composta de 248 artigos científicos.
Em 21 de maio de 1897em Blumenau , Fritz Müller morreu aos 75 anos. Um grande cientista e especialmente, um homem de sólidos princípios, tão raros atualmente.

Agradeço ao amigo e jornalista Raimundo Caruso pelo belíssimo presente, o livro de Cezar Zillig (1997) Dear Mr. Darwin - a intimidade da correspondência entre Fritz Müller e Charles Darwin. São Paulo. Sky/Anima Com.e Design. 163p.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Gossan, pseudo-gossan, lateritas e latosolos

Como bem sintetizou o pedólogo russo Polynov em 1937 "Intemperismo é o processo de mudança das rochas do estado maciço para o clástico" ou na concepção de Reiche (1959) e de Ollier (1969) "É o conjunto de processos que se desenvolvem na superfície da Terra e que consistem na fragmentaçção e decomposição dos minerais". Foi por isso que Viktor M. Goldschmidt sentenciou "O intemperismo é um processo analítico".
O intemperismo predominante nas regiões tropicais e sub-tropicais, caracteriza-se por condições essencialmente químicas e por esse motivo essencialmente analítico na sua ação e nos seus efeitos. Essas condições são  responsáveis por efeitos dramáticos sobre os materiais geológicos que a elas estão submetidos. Esses processos podem ser resumidos em hidratação, hidrólise, oxidação e dissolução. A lixiviação dos metais alcalinos e principalmente a concentração residual de Fe e Al dá origem a alguns produtos característicos denominados de lateritas, cangas ou carapaças ou couraças lateríticas, pseudo-gossans e gossans.
As lateritas foram identificadas pela primeira vez na India por Buchanan (1807) que cunhou o termo a partir da palavra lateros (do grego = tijolo) para identificar o solo ferralítico que era, e ainda é, cortado  pela população local em blocos retangulares,  que são usados na construção civil após uma secagem ao sol. Dependendo da químismo da rocha mãe, o processo de laterização pode gerar uma crosta lateritica de tal forma enriquecida em metais como Fe, Al e Ni que alcança teores econômicos com espessuras de até 100 m como as lateritas niquelíferas desenvolvidas sobre rochas ultramáficas. Diversos depósitos econômicos de Ni laterítico existem em diversos locais da faixa tropical do planeta. Outros metais de mobilidade baixa também ficam concentrados nas lateritas como MGP (metais do grupo da platina).
Já os pseudo-gossans são concentrações superficiais de materiais ferruginosos, principalmente limonitas e goethita, produzidos por concentrações de carbonatos dricos em Fe, massas de pirita "estéril"ou  até concentrações lateríticas a partir de  rochas máficas e ultramáficas.
Finalmente os gossans - também chamados de chapéus de ferro - são produzidos pela ação do intemperismo tropical e sub-tropical sobre concentrações de minerais sulfetados e por isso têm enorme utilidade pois servem como índices exploratórios ou prospectivos para mineralizações sulfetadas de diversos metais. Muitos metais presentes nos sulfetos como Pb, Cu e Ag (cátions)  e Mo, As e Se (como ânions) tendem a se enriquecer na goethita e assim servem para diferenciar gossans de pseudo-gossans.  A distinção entre pseudo-gossans e gossans é feita especialmente pela presença de metais de baixa mobilidade associados às diversas espécies de sulfetos que constituem as mineralizações sulfetadas de interesse econômico.
Além disso, gossans têm uma estrutura interna característica em forma de células que foi descrita por Roland Blanchard (foto ao lado) e P.F. Boswell numa série de artigos publicados nos volumes 22, 25, 29, e 30 da Economic Geology no período de 1925 a 1935. Um dos artigos relacionados com a molibdenita pode ser encontrado em
Se o leitor tiver interesse em fazer o download do excelente publicação consolidada e publicada postumamente:  Blanchard, R (1968) Interpretation of leached outcrops. Nevada Bureau of Mines Bull, vai encontrá-la no Google Books, no link abaixo:

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

"Tão chamando urubu de meu louro !"


A estrita observância aos procedimentos, protocolos e metodologia científica são fundamentais em geologia, assim como em outros ramos das ciencias da natureza para que os processos e os produtos sejam compreendidos e que outros pesquisadores consigam compreender e repetir nossos resultados. Quando tratamos e descrevemos minerais, rochas, solos, produtos do intemperismo existem regras a seguir e padrões a observar, caso contrário será criada uma enorme confusão. Imagine se um biólogo resolve dar o nome de papagaio a um urubu só porque o pobre do animal mergulhou numa lata de tinta verde. Ou lembrando a velho dito popular "Não é porque nasceram no forno que os gatinhos serão biscoitos. Apesar de um pouco tostados, serão sempre gatos." A esse propósito, lembro da confusão que se criou em torno do termo peperito. Esse termo teria sido usado pela primeira vez por George Poulett Scrope no livro The geology and  the extinct volcanoes of Central France (1858) ao descrever na Gergovia, Limagne, França Central, uma rocha composta por fragmentos angulosos de basalto suportados por uma matriz carbonática. Sublinhei teria sido, pois o pobre do Scrope não usou o termo peperito e sim peperino. Mesmo assim, a confusão já começou com o próprio Scrope pois na página 14 de seu livro, encontramos: " By higher in the series, a mixture in here and there to be observed of the products of neighbouring volcanic eruptions with the calcareous beds. In occasional instances, fragments of basaltic lava, crystals of augite, scoriae and volcanic ashes are scatetered through som of the disturbed limestone beds and assume frequentely a remarkable disposition, the havier and larger fragments accupying the lower part of each stratum, the lighter and smaller stopping in the upper part - suggesting the obvious idea that these fragments after ejection from a volcanic vent, had fallen through the air into the lake at the time the stratum in which they occurr was in the condition of very soft calcareous mud."
E na nota de rodapé da página 19 lemos
"The calcareous peperino of Vicentin (Montecchio Maggiore) exhibits some very similar mixtures of basalt and calcareous spar, which it is difficult to refer decidedly either to conglomerate or the solid lava-rock. In giving the name of peperino (grifo meu) to a volcanic conglomerate consisting of fragments of basalt and scoriae, without pumice or any trachytic matter, united either by simple adhesion or a calcareous or argillaceous cement, I follow the Italian geologists, who have continued this trivial term to a similar rock, which also, like that under consideration, occasionally contains fragments of limestone and primitive rocks, bituminized wood, &c, &c - vide Brocchi, Catalogo ragionato di Rocce, pp. 45, 47.
There exists the strongest analogy between the calcareous peperino (o grifo é meu) of the Limagne and that of the Vicentin, the latter being without doubt the result of volcanic eruptions breaking forth from the bottom of the sea, in which vast masses of calcareous matter (of the Pliocene tertiary formation) lay in a pulpy unconsolidated state; the former of eruptions through a similar mass, the deposit of a freshwater lake. The great variety of rare and beautiful crystalizations to which this violent mixture of calcareous matter with incandescent lava has given rise in both localities, is remarkable. Mesotype, stylbite, arragonite (sic), chalcedony, and numerous forms of calcareous spar, abound in the drusy and vesicular cavities and veins of both these conglomerates."
Se agora, tomarmos a descrição de peperino, rocha que é usada em estatuária desde o Império Romano, e que ocorre na Itália nas Coline Albani e em Soriano del Cimino, próximo de Roma, vemos o claro equívoco cometido por Scrope "Il peperino o piperino è una roccia magmatica, tipica delle zone di Vitorchiano e Soriano nel Cimino, in provincia di Viterbo, e dei Colli Albani, in provincia di Roma, costituita da frammenti di trachite o di tefrite, e contenente leucite in varie percentuali. Il colore classico è il grigio macchiettato. È presente inoltre in varie zone dell'Italia centrale. Viene utilizzata nelle costruzioni tipicamente per la realizzazione di zoccolature, fasce, lastricati, soglie, scale. Il nome peperino deriva dal latino tardo lapis peperinus, derivato di piper (cioè pepe), per la presenza di particelle di biotite di colore nere simili a grani di pepe. Processo di formazione - Il peperino, una ignimbrite di tipo tufo saldato, deriva dalla cementazione di materiali vulcanici dell' antico Vulcano Cimino."
No glossário do Guia de Campo  às Províncias Magmáticas Toscana e Romana do Curso de Vulcanologia da Universidade de Pisa, encontramos as seguintes definições: "Peperino (a) an unconsolidated gray tuff of the Italian Alban Hills, containing crystal fragments of leucite and other minerals; (b) an indurated pyroclastic deposit containing fragments of various suizes and types"

A partir desse equívoco genético e da confusão de termos, todos os produtos de interação de lava com sedimento passaram a receber a denominação de peperito: "Peperite, a term first introduced by Scrope (1858), is a volcaniclastic rock formed by the intermingling of magma and wet sediment. Peperite contains quenched igneous fragments, or domains, mingled with host sediment."  (J.A.Hooten, M.H.Ort (2002) Journal of Volcanology and Geothermal Research 114 (2002) 95).
Atribuir o nome de um tipo de ignimbrito a uma brecha vulcanoclástica deu origem a uma confusão tal, que atualmente o termo peperito tem sido aplicado com conotações genéticas e descritivas e com uma abrangência tão ampla que engloba qualquer rocha gerada pela interação de lava com sedimentos, seja no interior de um conduto ou na superfície, ou então brechas resultantes de erupções hidrovulcânicas ou de fluxos de lava que encontraram sedimentos úmidos em áreas emersas ou sob o oceano. Um verdadeiro "saco de gatos"! Raciocinando por absurdo é como ler os resultados de uma análise química e com base nos teores de SiO2, K2O, Al2O3, e outros óxidos, concluir que o material analisado é um granito quando na verdade é um arcósio.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Empilhar é preciso, mas use as botas e o martelo

Numa das conversas que tive durante o V Simpósio de Vulcanismo e Ambientes Associados, a discussão foi centrada na adoção da geoquímica como critério principal  para a divisão de unidades de uma província vulcânica, especialmente a Formação Serra Geral. Mesmo com mais de 30 anos de geoquímica "no lombo", a idéia não me parece razoável pois a geoquímica não é um critério facilmente reprodutível no campo, exigindo a coleta e análise de amostras em laboratório (especialmente quando tratamos de razões entre elementos traço ou sub-traço). Foi por isso que desde as primeiras discussões sobre o mapeamento dos 90.000 km² da Formação Serra Geral no Estado do Paraná, sempre consideramos (Arioli e eu) que a geoquímica não seria um critério principal para a proposição da divisão mas sim um critério subsidiário para a caracterização das unidades.
Chegando em Curitiba, consultei a última versão do NORTH AMERICAN STRATIGRAPHIC CODE, North American Commission on Stratigraphic Nomenclature (AAPG Bulletin, v. 89, no. 11 [November 2005], pp. 1547–1591) que o Hardy Jost me enviou.
O Código deixa muito claros os conceitos e a seleção de critérios para a formalização de uma unidade: “O objetivo de um sistema de classificação é o de promover a comunicação inequívoca de uma maneira que não seja restritiva a ponto de inibir o progresso científico. Para minimizar a ambigüidade, o código deve promover o reconhecimento da distinção entre características observáveis ​​(dados reprodutíveis) e inferências ou interpretações. Além disso, deve ser suficientemente flexível para promover o desenvolvimento da ciência. (...) A unidade estratigráfica pode ser definida de várias maneiras. A ênfase etimológica exige que um estrato ou conjunto de camadas adjacentes sejam distinguidos por um ou vários das muitas propriedades que as rochas possuem (ISSC, 1976, p. 13; 1994, p. 13-14). O escopo e procedimentos da classificação estratigráfica, no entanto, sugere uma definição mais ampla: um corpo natural de material rochoso ou rocha distinguidos dos corpos de rocha adjacente, com base em alguma propriedade ou propriedades declaradas. Propriedades comumente usados incluem a composição, textura, conteúdo fossilífero, assinatura magnética ou radioativa, velocidade sísmica e idade. É necessário um cuidado para a definição dos limites de uma unidade de maneira a permitir que outros também o distingam dos materiais adjacentes.”
 Já o Artigo 9° deixa bem claras as condições e fatores que devem ser considerados como critérios auxiliares para caracterizar uma unidade:
Artigo 9° - Caracterização de uma unidade – Na proposta formal de uma unidade ela deve ser descrita e definida tão claramente que qualquer investigador subseqüente possa reconhecê-la de forma inequívoca. Parâmetros distintivos que caracterizem uma unidade podem incluir um ou mais dos seguintes: composição, textura, estruturas primárias, atitudes estruturais, restos biológicos, composição mineral claramente identificável (p.ex., calcita x dolomita), geoquímica, propriedades geofísicas (incluindo assinatura magnética), expressão geomorfológica, relações de inconformidade e idade. Embora todas as características utilizadas para a caracterização da unidade devam ser descritas suficientemente para caracterizá-la, elas são não pertinentes à categoria (como idade e gênese inferidas para unidades litoestratigráficas, ou conteúdo fossilífero para as unidades bioestratigráficas) e não devem fazer parte da definição.”
Aliás, é exatamente por esse motivo que o David Peate, o autor pioneiro que estabeleceu os magmas-tipo da Formação Serra Geral (Pitanga, Paranapanema, Urubici, Ribeira, Esmeralda e Gramado) alertou e enfatizou em sua tese de doutorado e em artigo subseqüente, que os magmas-tipo dessa sub-divisão geoquímica não deveriam ser considerados como unidades de mapeamento pelo simples fato de não serem reconhecíveis em campo. E esse conceito é fundamental: unidade de mapeamento tem que ser reconhecida em campo!  Esse prudente alerta do David Peate faz muito sentido se levarmos em consideração que magmas-tipo diferentes podem gerar produtos muito parecidos se as condições ambientais (p.ex. taxas e fontes de contaminação crustal) forem assemelhadas e por outro lado, o mesmo magma-tipo pode gerar produtos diferentes se as condições ambientais  forem diferentes. Assim a sub-divisão geoquímica proposta pelo David Peate, ou qualquer outra, pode ser utilizada como mais um critério para a caracterização de unidades delimitadas por trabalhos de mapeamento em campo.
Assim, me parece claro que os critérios para a delimitação de unidades no mapeamento geológico de um terreno vulcânico são a arquitetura, a faciologia, a origem (derrames, ignimbritos, depósitos piroclásticos, brechas, entre outros), a forma e as relações de contato dos depósitos. Além do mais, é evidente que a delimitação e subdivisão de unidades é profundamente dependente da quantidade de pontos de controle geológico, o que está relacionado com a da escala do mapeamento.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

V Simpósio de Vulcanismo e Ambientes Associados

Estou em Vila Boa de Goiás, capital da Província de Goiás até 1937, terra da doceira e poetisa Cora Coralina. Foi nessa região que em 1682 o bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, atemorizou os indígenas com a famosa e tão recontada mágica, pondo fogo numa tigela de cachaça e ameaçando que poria fogos nos rios da região se não soubesse de onde eles extraíam ouro. Esse truque lhe deu o apelido de Anhangüera "Diabo Velho" ou "Espírito Maligno". Quarenta anos depois, seu filho retornou à região e fundou essa vila às margens do rio Vermelho
Hoje à noite, nessa cidade especial, Patrimônio da Humanidade da UNESCO, será a abertura do V Simpósio de Vulcanismo e Ambientes Associados. Além das conferências de convidados especiais, sessões técnicas e poster, no começo das manhãs, o Hardy Jost nos guiará a afloramentos especiais do greenstone de Goiás. Evento especial em uma cidade especial.