Deus é um conceito criado pelos homens para seu conforto espiritual, para minimzar seus medos, para explicar o desconhecido e agir como uma válvula de escape para a limitação de nosso conhecimento científico. Quando no século XVI, Vasco da Gama, Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio e Pedr'Álvares Cabral, partiram da Europa com suas caravelas iniciando uma era de grandes descobrimentos e uma profunda revolução do conhecimento e da cultura ocidentais, o maior temor deles era que pudessem cair da borda do mundo, imaginado como um grande prato apoiado nas costas de enormes elefantes ou então que seriam devorados por serpentes e monstros marinhos. Para qualquer eventualidade, a bordo estava sempre um capelão - lembram do Frei Henrique de Coimbra ?
A minha opinião, um geólogo com 62 anos de idade e 36 anos de profissão, formado pela UFRGS, uma universidade federal pública e gratuita é que, se alguém quiser acreditar em Deus, não tenho nada a opor. Pelo contrário, cada um acredita no que quer e no que lhe faz bem. Mas por favor, que não se misturem as coisas ! Ciência e religião são como água (benta?) e azeite de oliva (de primeira prensagem): jamais se misturam e sempre serão duas fases separadas e distintas. Mas se essa imiscível mistura continuar, estarão se estabelecendo limites inaceitáveis para o processo de investigação científica.
Nunca é demais lembrar que a natureza não é uma acumulação acidental de objetos, de fenômenos isolados e independentes, mas um todo unido e coerente, onde os fenômenos são interligados, dependem mutuamente e se condicionam reciprocamente. A natureza não está em estado de repouso e de estagnação, mas em movimento incessante e mudança perpétua de renovação e desenvolvimento, onde sempre algo novo nasce e se desenvolve e algo se desagrega e desaparece. Lembrem que o processo de desenvolvimento resulta de uma soma de insignificantes mudanças quantitativas para mudanças qualitativas aparentes e radicais; que as mudanças qualitativas não são graduais, mas rápidas, súbitas e operam aos saltos de um estado para outro e são o resultado da acumulação de mudanças quantitativas insensíveis e graduais. Que os fenômenos e objetos da natureza implicam em contradições internas, portanto eles têm sempre um lado positivo e um negativo, um passado e um futuro, todos têm elementos que desaparecem ou que se desenvolvem; a luta desses contrários, a luta do antigo e do novo, entre o que morre e o que nasce, entre o que perece o que se desenvolve, é o conteúdo interno do processo de desenvolvimento, da conversão das mudanças quantitativas em mudanças qualitativas. Se você que chegou até aqui nunca leu esse texto ecologicamente correto e acha que foi escrito por um guru indiano ou um monge budista ou por Fritjof Capra (aquele do Ponto de Mutação, já leu ?), saiba que ele trata da Dialética da Natureza, está no parágrafo 2, do Capítulo IV escrito por Joseph Stalin no compêndio da História do Partido Comunista da URSS, um autor evidente, decidida e historicamente ateu e agnóstico.
Finalizo dizendo que geólogos ou cientistas da Terra, têm a obrigação de desconfiar e duvidar sempre. Essa é a base do processo científico e é assim que a ciência progride. Esse é o monumental abismo que separa e divide os mundos científicos e religiosos, pois dos dogmas da religião nunca se duvida, neles apenas se crê. Devem acostumar-se sempre a desconfiar e a duvidar da história contada pelos vencedores. Normalmente ela contém armadilhas e desvios colocados propositalmente para iludir e “pegar os ratões” de espírito crédulo e pacífico. Sabiam que Pedr'Álvares foi precedido por dois espanhóis, Diego de Leppe e Vicente Yañez Pinzón, que velejaram pela costa do Brasil alguns meses antes de que Cabral chegasse a Porto Seguro em 21 de abril de 1500 ?
Se vocês quiserem ter uma outra visão da natureza, recomendo a leitura de Notas Introdutórias à Lógica Dialética, de Caio Prado Júnior, Editora Brasiliense, 1968.
Se vocês quiserem ter uma outra visão da natureza, recomendo a leitura de Notas Introdutórias à Lógica Dialética, de Caio Prado Júnior, Editora Brasiliense, 1968.


