quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Mais uma preciosidade

Durante o curso de vulcanologia que assisti em novembro de 2010 nos Andes Centrales, tive oportunidade de muito boas charlas (conversas), e muitas delas foram com Alfredo Jacobs Fuentes, boliviano, engenheiro geólogo formado na Universidade de Ouro Preto e que atualmente trabalha na Minera San Cristóbal na Bolívia.

Ao saber de meu interesse por história e livros antigos sobre mineração, ele me passou um livro que “baixou” do Google Books. É “Arte de los metales em que se enseña el verdadero beneficio de los de oro, y de plata por azogue. El modo de fundirlos todos, y como se han de refinar y apartar unos de otros.” Foi escrito pelo Licenciado Alvaro Alonso Barba, nascido na Villa de Lepe na Andaluzia, Cura da Paroquia San Bernardo, na Imperial de Potosi. Foi publicado pela primeira vez em 1637 com a aprovação de Diego de Padilla, Andrés de Sandoval e Bernardo de Ureña “Diputados del Gremio de Azogueros” (algo como a associação dos especialistas em mercúrio) da Villa de Potosí e com Imprimatur de 1639 por Don Paulo Barondelet.

No Capítulo XII, há uma deliciosa descrição “De la generación de las Piedras” que vou tentar traduzir. “Não se pode ter dúvidas que haja alguma virtude ativa, que engendre, e faça as pedras, como há para todas as outras coisas gerais e corruptíveis do Universo; mas esta é muito difícil de conhecer, por não ter lugar definido para geração, pois nos ares, nas nuvens, na terra, na água e nos corpos dos animais vemos que se produzem pedras. É sua matéria próxima, como já disseram Avicena e Alberto, uma mistura de terra e água, que se tem mais água que terra, se chama suco (Jugo); e se tiver mais terra que água, o chamamos lodo: o lodo tem que ser viscoso e tenaz para que ao ser fervido possa produzir as pedras, como é o que se usa para fazer telhas, tijolos e outros vasos; porque se não for assim, quando a umidade se evaporar com o calor, não ficará unida, e então a matéria se transformará em pó e terra.”

No Capítulo XIII o autor discorre sobre “De las diferencias que hay de Piedras”. “Toda a diversidade que existe de pedras pode ser reduzida a cinco gêneros; porque se são pequenas, raras, duras e que têm brilho e lustro, são as que se chamam Preciosas; se são grandes, ainda que sejam raras e que brilhem muito, se reduzem aos Mármores; se ao serem quebradas ficam aguçadas ou como escamas, são as Pederneiras; se estão finamente granuladas, são Guijarros; e se não têm os características acima, são as Penhas ou Pedras Ordinárias.”

O Capítulo XXIV contém os segredos de “Còmo se buscan las vetas de Metales”. “(...) Dão as cores dos morros, indício de que têm ou não minerais em suas entranhas.(...) Não há regra infalível e certa para que apenas a cor da terra seja um argumento de uma espécie de mineral em particular, que nela se cria, a menos que as experiências ou ensaios consigam provar. E assim, ainda que o material mais ordinário em que se cria o Ouro é vermelho ou amarelo escuro como um tijolo mal cozido, também se acham seus veios entre materiais esbranquiçados como em Oruro e Chayanta. São louros, da cor do trigo os demais minerais, ou Morros de Prata dessas Províncias (...) mas se ocorrem os veios encobertos, que se chamam Encapados, se procuram dessa maneira. Pelos vales, entre os morros, por onde a água corre quando chove, ou por outras partes de suas encostas, se sobe pouco a pouco com o martelo que chamam Catador na mão, aquele que tem uma ponta de aço numa parte para cavar se for necessário, e na outra, chata, para quebrar as pedras; deve se prestar muita atenção para as diferenças que há entre as pedras, e ao quebrá-las, as que reconhecidamente não se parecem com as ordinárias se encontram algumas, já medianas, ou muito pequenas de metal: deve-se considerar sempre segundo o local, o lugar de onde puderam cair que é necessário que seja sempre de mais alto. Chamam essas pedras de metal que se acham assim, de Rolados. Seguindo-as morro acima, enquanto se vê o rastro delas, e não existindo mais, é sinal certo de que por ali está o veio. Descobre-se com uma enxada, servindo de guia seguro, os fragmentos soltos de metal que se encontram ao cavar.

Os olhos de água ou mananciais que se vêm nos morros, são bons indícios da proximidade dos veios, pois a água corre por esse e por aqueles sai.

Costumam ser sinais de veios, árvores ou ervas que sendo de um gênero, se vêm plantadas em linha, indicando a Mina que corre por debaixo delas. Não crescem tanto nem têm cor tão viva como as demais plantas que se criam sobre os veios de metais; porque as exalações que saem deles as enfraquecem; consomem-se por esse motivo mas apressam o orvalho da manhã que cai sobre elas e mesmo a neve se derrete primeiro nos morros que têm Minas que nos vizinhos que não as têm, e no lugar onde há veios antes que nos lugares que não os têm.”

As observações de Alvaro Alonso Barba seguem sobre os diversos metais, suas formas de fundir e beneficiar. São especialmente interessantes as experiências sobre os cuidados na manipulação do mercúrio para a recuperação do ouro, para evitar suas perdas e desperdícios. São também muito interessantes os Capítulos XIII e XIV do Livro 4 “Del Arte”, que detalham os procedimentos para analisar, e os cuidados a serem adotados quando se está fundindo uma amostra de minério com o objetivo de definir o teor de uma mina de ouro, cobre, prata ou chumbo.

Sem dúvida nenhuma, um dos primeiros livros sobre as técnicas de prospecção, tratamento e beneficiamento de metais publicados na América do Sul.

Nessa edição de 1770 que recebi do Alfredo, foi acrescentado “El Tratado de las Antiguas Minas de España”por Don Alonso Carrillo y Lasso, Cavalheiro do Avito de Santiago e Cavalariço de Cordova.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Congresso Brasileiro de Geoquímica

O XIII Congresso Brasileiro de Geoquímica e o III Simpósio de Geoquímica dos Países do MERCOSUL se realizarão em Gramado, RS no período de 9 a 14 de outubro de 2011. Os temas têm grande amplitude e abrangem os seguintes temas de interesse: Litogeoquímica; Exploração Mineral e Prospecção Geoquímica; Geoquímica de Depósitos Minerais; Geoquímica Isotópica; Geoquímica Orgânica (petróleo, carvão e gás); Geoquímica Ambiental; Biogeoquímica; Hidrogeoquímica; Glacioquímica e Química da Atmosfera; Geoquímica do Vinho; Geoquímica Analítica; Geoquímica Experimental; Geoquímica e Educação.

http://www.ufrgs.br/13cbgq/co.html

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Saludos desde la Puna

Estou há alguns dias em San Antonio de los Cobres, Província de Salta, Argentina, assistindo a um espetacular curso de vulcanologia nos Andes Centrais ministrado por professores da Universidade Nacional de Salta e convidados.







Professores com altíssima capacitação e experiência, muito boa organização e um roteiro com afloramentos e ambientes sem igual com exemplos espetaculares de base surges, block-and-ash flows, ignimbritos e lavas. (procure o vulcão Tuzgle no Google Earth). Um  curso de campo muito necessário e adequado para quem está participando do mapeamento geológico do Grupo Serra Geral.








Sem dúvida um dos melhores cursos de campo que já tive a oportunidade de assistir, junto com trinta e cinco estudantes da Argentina, Brasil, Bolivia, Peru, México e Estados Unidos.




Como ninguém é de ferro, exceto o Martín, na semana anterior Ani e eu estivemos em Salta e fomos a Cafayate conhecer a região produtora e provar os vinhos Torrontés (espetaculares brancos secos frutados).







Num belvedere da Quebrada de las Conchas, encontrei uma placa com a frase do grande cantor e compositor argentino Atahualpa Yupanqui que está abaixo. Nada mais verdadeira a mensagem desse genial cantor e compositor argentino, especialmente para geólogos. "Para el que mira sin ver, la tierra es tierra no más" (Para aquele que olha sem ver, a terra é nada mais que terra.)
Continuarei numa próxima postagem, pois já são quase 1:00 de domingo. Amanhã é dia de campo o que a 4.000 metros de altitude e umidade de 10%, é dureza.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Qualidade dos dados em prospecção geoquímica

No Brasil, a responsabilidade pela coleta de amostras de prospecção geoquímica, principalmente as de sedimentos fluviais, é delegada a pessoal com pouca experiência e até mesmo a prospectores superficialmente treinados. Em alguns países, essa tarefa é desempenhada pelos geólogos do projeto, tal é a importância que é dado a esse trabalho.
Em qualquer circunstância, o geólogo responsável por um projeto de prospecção mineral, deve assumir uma função de fiscalização e treinamento constantes de suas equipes, em especial e principalmente quando se trata da coleta de amostras de sedimentos fluviais, que eu considero as mais importantes do processo de prospecção geoquímica. A questão fica ainda mais crítica quando o serviço de coleta de amostras é "terceirizado" e entregue a uma empresa contratada.
É necessário ter sempre em mente que uma amostra de sedimentos fluviais representa uma bacia e não o local de coleta. Desse modo, uma amostra de sedimentos fluviais adquire uma importância individual muito grande, pois dentro de apenas uma bacia hidrográfica - mesmo que seja uma micro bacia - pode existir um depósito mineral. Dependendo da qualidade dos dados produzidos, o depósito pode ser identificado ou não. Por outro lado, uma anomalia geoquímica pode ser produzida pela soma dos erros amostrais, analíticos e aleatórios, induzindo ao erro da presença de um alvo exploratório inexistente, ou seja um falso positivo.

Fica assim claríssima a necessidade do investimento nos procedimentos de controle de qualidade nos projetos de prospecção geoquímica, que passam obrigatoriamente por três ítens básicos:

(1) controle do desempenho do laboratório ao longo do tempo - monitorado por séries de amostras padrão;
(2) controle dos procedimentos de coleta de amostras - avaliado por pares de amostras originais e replicatas;
(3) controle dos procedimentos de precisão analítica - avaliado por pares de amostras originais e duplicatas.

Não importa se o laboratório contratado  é de qualidade reconhecida e certificado internacionalmente - é necessário fiscalizar seu desempenho ao longo do tempo. Não importa se o seu amostrador é de confiança - é necessário monitorar seus procedimentos constantemente
Os erros que acontecem num banco de dados de prospecção geoquímica são o resultado do somatório de erros amostrais, analiticos e aleatórios. Se em cada amostra tivermos uma imprecisão de 15% em cada termo dessa equação, imagine a dimensão do erro final.
Por esse mnotivo eu insisto: o controle da qualidade deve ser uma busca diária e constante.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Troca de dados por taxas

Recebi de um colega uma idéia de redução do montante das taxas pagas pelas empresas ao DNPM pela troca com os dados de exploração.
Após utilizados em benefício de seus projetos, as empresas poderiam entregar seus bancos de dados geoquímicos, geofísicos e de sondagens que passariam a integrar um grande banco de dados nacional.
Esses dados sofreriam uma rígida crítica quanto a posicionamento e veracidade (mediante a apresentação dos boletins analíticos e dos resultados originais dos levantamentos e sondagens emitidos pelas empresas prestadoras de serviços) e teriam um formato pré estabelecido para serem agregados a esse grande banco de dados nacional.
Assim, na medida em que uma área já pesquisada e abandonada pelo detentor, despertasse atenção de outro interessado, os dados produzidos e arquivados serviriam de referência inicial para os novos trabalhos.
Esses dados seriam avaliados com base no valor de mercado, que seria creditado numa conta da empresa produzindo uma redução significativa das taxas e tributos relativos à manutenção de áreas para pesquisa mineral.

Me pareceu uma excelente idéia para todos os atores envolvidos.

Curso de Tratamento de Dados

Passei a semana de 18 a 22 de outubro em Belo Horizonte, ministrando um curso patrocinado pela ADIMB - Agência Para o Desenvolvimento da Indústria Mineral Brasileira, para 24 geólogos e técnicos de empresas privadas de grande médio e pequeno porte e orgãos estatais. Tentei equilibrar as aulas expositivas com as aulas práticas, de forma a dar uma visão geral sobre técnicas de tratamento e representação gráfica de dados de exploração geoquímica e também técnicas de controle de qualidade. Considero que houve uma boa troca de experiências. Pelo menos eu aprendi bastante com as questões práticas e problemas de campo apresentados e discutidos pelos alunos.
Re-encontrei  um colega, hoje gerente de exploração de uma empresa privada, que me prometeu recuperar informações e resultados sobre o uso de termiteiros em exploração geoquímica  para postar aqui nesse blog. Vamos aguardar por esse material pois são experiências enriquecedoras e pouco divulgadas.

sábado, 16 de outubro de 2010

Olha o Centro-Oeste aí, minha gente !

A propósito de técnicas não convencionais de exploração geoquímica, encontrei um resumo interessante sobre a utilização de amostragem de termiteiros para exploração de ouro na África Ocidental. O primeiro autor, Claude Roquin foi meu orientador no estágio que fiz em 1992 no Centro de Geoquimica da Superfície na Universidade Louis Pasteur em Strasbourg. Seus co-autores são todos "da pesada": Ph. Freyssinet, A. Novikoff e Y.Tardy. Foi publicado no Boletim do BRGM que reportou os principais resultados científicos e tecnológicos do BRGM em 1990-1991. Aqui vai um pequeno resumo de "Géochimie des termitières et des sols sur cuirasse: application à la prospection géochimique de l'or en Afrique de l'Ouest".
Na Africa Ocidental, os termiteiros são muito frequentes e estudos recentes mostram que eles desempenham um papel importante na pedogênese dos perfis lateríticos. Os termiteiros que sobressaem do solo, são geralmente construidos a partir de materiais argilosos, siltosos ou arenosos finos, recolhidos em profundidade e trazidos à superfície. Nos platôs com couraças lateríticas, a fonte principal de material fino se encontra a vários metros de profundidade, abaixo da couraça, na região do saprolito. Os termiteiros são erodidos, seu material é lixiviado nas estações chuvosas, transportado e redepositado nas depressões da topografia. O processo de dispersão mecânica e o de formação de solos argilo-siltosos foram postos em evidência no estudo comparativo com materiais diferentes (saprolito e solos de termiteiros) na região de kangaba, Mali.
Esse modelo de dispersão em ambiente laterítico foi estudado nas vizinhanças de uma mineralização aurífera, com o objetivo de testar a representatividade da composição química dos termiteiros, assim como a sua viabilidade de uso no conjunto de técnicas de prospecção geoquimica em ambiente de couraças lateríticas.
Os termiteiros foram amostrados em uma área de 1 km2, em malha de 100 x 50 m, que se superpôs a uma campanha precedente de prospecção geoquímica de solos e couraças. Dois tipos de termiteiros foram identificados:
(a) grandes termiteiros conicos (> 1 m de altura) chamados de termiteiros catedral, mais frequentes nas zonas florestadas e correspondendo ao gênero Macrotermes







 (b) os termiteiros cogumelos, mais comumente atribuídos ao gênero Cubitermes.






(Imagem de  http://www.animalpicturesarchive.com/ArchOLD-2/1108831545.jpg)

A comparação dos dois tipos de termiteiros mostra um teor de C orgânico mais importante nos do gênero Cubitermes, o que se traduz igualmente em teores de P2O5 mais elevados. A posição geomorfológica constitui, da mesma forma, um fator de diferenciação: os termiteiros amostrados nas porções elevadas dos platôs, são mais ricos em caulinita (55%) e em óxidos de ferro (10%) e empobrecidas em quartzo (35%) em comparação com os terrmiteiros situados nas zonas argilo-siltosas das depressões (caolinita = 20%, óxidos de ferro = 3%, quartzo = 75%). Esse fenômeno se observa nas cartas geoquímicas, de um gradiente de composição química dos termiteiros relacionado com a altitude e a geomorfologia. Uma grande quantidade de elementos traço está associada à caolinita e óxidos de ferro (K, Ba, Cr, V, As, Cu, P, Sr, Zn, Mn) variando ao contrario do quartzo e Zr. Outros elementos  (Ti, Co, Y, Nb e Ce) são independentes e se enriquecem nas zonas de incisão da couraça.
A comparação das imagens geoquímicas obtidas a partir das amostras de termiteiros e de solos, mostram que o corpo mineralizado sob a couraça fica melhor caracterizado pelos teores anômalos de Au e As nos termiteiros quando comparados com os da couraça. Outros elementos (B, K, Ba, Sr, Cd, Pb, Cu) também mostram anomalias nos termiteiros ao redor da mineralização. O halo de dispersão é mais amplo e melhor contrastado nos termiteiros comparados com as couraças. Os teores de Au são mais regulares mostrando também uma redução do efeito pepita.

Eu gostaria muito de postar um  relato com a experiência de algum leitor sobre esse tema.

domingo, 3 de outubro de 2010

Livros ...

É ainda possível chorar sobre as páginas de um livro, mas não se pode derramar lágrimas sobre um disco rígido.

José Saramago (1922 - 2010)

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Prospecção hidrogeoquímica no século XVI

Vannoccio Vincenzio Austino Luca Biringuccio nasceu em Siena em 1480 e faleceu em Roma em 1539. Era apadrinhado da familia burguesa Petrucci de Siena. Ainda jovem, viajou pelos territórios que 250 anos depois seriam a Itália e a Alemanha, e visitou as fundições de latão e bronze de Milão. Ao retornar, foi enviado por Pandolfo Petrucci para dirigir as minas de ferro de Boccheggiano na Toscana. Na revolta popular ocorrida em Siena em  1515, Biringuccio e o ourives Francesco Castori foram acusados de alterar a composição da liga das moedas. Fugiu para Nápoles para não ser preso. Com a interferência do Papa Clemente VII, conseguiu retornar a Siena, onde recebeu o monopólio de produção do sal petrae (KNO3), nitrato natural usado na fabricação de pólvora e na metalurgia. Muitos anos e algumas batalhas depois, em 1536 ele tornou-se o superintendente da fundição e diretor das munições do Papa Paulo III.

No livro De la Pirotechnia,  que é considerado o primeiro manual da metalurgia e fundição ocidental, e que foi publicado em 1540, após sua morte, ele resumiu todo o seu conhecimento prático e teórico. Mas como cabe a todo "cara" genial, além de preocupar com o beneficiamento dos metais ele detalhou no "Prefácio ao Primeiro Livro" a forma de ocorrência dos minérios e algumas técnicas para encontrá-los. Esse texto com 13 páginas, denominado "Quanto a localização dos minérios" contém preciosidades, algumas delas estão abaixo (numa tradução livre) : 

 "(...) segundo bons pesquisadores, minérios são encontrados em muitas partes do mundo. Geralmente eles se mostram como as veias de sangue no corpo dos animais, ou os ramos das árvores que se espalham em todas as direções. Na verdade, pesquisadores cuidadosos dos minerais, desejando fazer uma analogia, de como os minérios se localizam nas montanhas, desenham uma grande árvore com muitos galhos, plantada na base da montanha. Do tronco se estendem diversos ramos, uns finos outros grossos, exatamente como nas árvores de uma floresta. Eles pensam que eles crescem e aumentam continuamente em direção ao céu, convertendo à sua natureza todos os materiais vizinhos e inúteis, de forma que finalmente as pontas chegam ao cume da montanha e emergem com claros sinais, e ao invés de folhas e flores, emanam  fumosidades azuis e verdes, marcassitas com pequenos veios de minerais pesados ou outras composições e tinturas." 

"(...) você procurará nas vertentes dos vales, nos pedaços quebrados de rochas, nas cristas e nos picos das montanhas e também nos leitos e cursos dos rios; e olhando nas suas areias ou entre as ruinas dos diques e valos, onde geralmente aparecem as marcassitas ou pequenos fragmentos de minérios ou outras tinturas metálicas, facilmente você terá indicações a partir dessas coisas que certamente existirá minério nesses locais. Exatamente onde ele está, deverá ser definido pela cuidadosa observação das escavações à medida que elas forem sendo abertas."

"(...) Existem alguns que consideram como um bom sinal, certos resíduos que as águas deixam onde estão paradas ou depois de terem repousado por alguns dias; frequentemente aquecidas pelos raios do sol, algumas partes desses resíduos mostram diversas tintas de substâncias metálicas. Há outros que colhem essa água e provocam sua evaporação ou a secam totalmente por aquecimento em um vaso de cerâmica, vidro ou outro material, e então testam o material terroso que restou no fundo, pelo sabor, por simples análise de fusão, ou por outro modo que lhes agrade. Desse modo (muito embora  não tenham uma prova exata) eles tem um conhecimento aproximado da coisa."

Meus caros, estamos falando de século XVI ! Me impressiona nessas descrições, o conhecimento dos processos de migração e dispersão de metais dissolvidos nas águas superficiais e subterrâneas e que as técnicas de prospecção hidrogeoquímica já eram usadas com freqüência e até com certa sofisticação analítica. Daí para a espectrometria de massa por plasma induzido "foi um pulinho" !

O meu exemplar do De La Pirotechnia, é uma tradução de Cyril Smith e Martha Gnudi, edição de 1942 da Basic Books, Inc. tem 477 páginas e foi comprado na Amazon.com pela "fortuna" de US$ 16,50

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Mercado de trabalho

Recebi uma mensagem de uma estudante de geologia perguntando sobre mercado de trabalho relacionado com geoquímica, qual dos campos de especialidade da geoquímica favorece a realização de trabalhos de campo e como está o mercado de trabalho na geoquímica de exploração mineral e qual é o perfil de um geoquímico de prospecção mineral. Achei que a resposta que enviei poderia interessar a outros estudantes e resolvi postá-la.
Os campos de atuação em geoquímica são extremamente diversificados, pois vão desde a litogeoquímica fundamental, a geoquímica isotópica, a hidrogeoquímica,  o diagnóstico e monitoramento ambiental, a exploração de depósitos de óleo e gás e de metais.
A questão dos trabalhos de campo é difícil de responder, pois depende de muitas variáveis como o escopo do projeto, a dimensão e composição da equipe e a própria personalidade do profissional.

A receita de um geoquímico de prospecção mineral é: 250 g de geoquímica fundamental, uma colherada de metalogênese, um copo de operação de SIG,  uma xícara de química analítica, muitas pitadas de estatística, pedologia e geomorfologia, uma boa experiência de campo que lhe dê a capacidade de enxergar o geral e identificar os detalhes, e a capacidade de propor e testar novas técnicas para melhorar o poder de discriminação da prospecção geoquímica. Coloque tudo isso na batedeira por uns 5 anos. Despeje cuidadosamente numa forma que tenha sido previamente lavada com uma boa cerveja. Leve ao sol por no mínimo 15 anos e quando aparecer uma casca dura, está pronto para usar.
Se você quiser uma análise mais séria dessa questão veja o texto postado nesse blog em 28 de novembro de 2009.

Me parece que o mercado de trabalho  está em expansão, pois as empresas de exploração mineral estão muito ativas no Brasil e no exterior. Infelizmente  os levantamentos geoquímicos regionais e o nacional, que seriam capazes de criar novas bases para a exploração mineral no Brasil ampliando muito o mercado de trabalho para geoquímicos de prospecção, foram relegados a um papel secundário pela maioria dos orgãos de governo federal e estaduais, salvo honrosas exceções como a Mineropar.

(Imagem: Capa do livro Receitas de Dona Benta - Companhia Editora Nacional, São Paulo)